Análise dos Fatores Que Provocam Escorregamentos
O verão representa um desafio crítico para a ocorrência de deslizamentos de massa no Sudeste do Brasil, especialmente em regiões montanhosas com construções irregulares. Durante esta estação, após semanas de chuvas intensas, o solo perde sua coesão, tornando-se vulnerável a deslizamentos. Estes eventos não são atribuídos apenas ao peso da água, mas à pressão que ela exerce entre os grãos de terra, reduzindo a fricção que mantém a encosta estável. Esse fenômeno se repete anualmente nas encostas das serras, resultando em tragédias e acidentes que afetam diversas vidas.
A professora Camila Viana, do Departamento de Geologia Ambiental e Aplicada do Instituto de Geociências da Universidade de São Paulo, aponta que a água acumulada no solo durante o verão é liberada ao final da estação, provocando deslizamentos. “O solo age como um reservatório natural de água, similar a uma esponja. Ao longo do ano, parte da água das chuvas é absorvida pelas encostas. No início do verão, essa esponja está mais seca e capaz de drenar a água sem provocar grandes problemas, mas com a continuidade das chuvas, os espaços entre as partículas do solo se preenchem”, esclarece.
Camila continua, explicando que, conforme o nível do lençol freático sobe, a pressão da água no solo aumenta. “Essa pressão gera instabilidade. O que sustenta a estabilidade do solo é o equilíbrio entre a força da gravidade e a resistência interna do solo, que envolve fatores como atrito, coesão e sucção. Com a umidade crescente, essa resistência se reduz, e o solo, em certa medida, perde sua aderência interna”, explica a especialista.
Tecnologias de Prevenção de Deslizamentos
A professora também destaca a importância de tecnologias de monitoramento, como sensores de umidade e inclinômetros, que podem ajudar a prevenir tragédias. “Os sensores de umidade medem a quantidade de água no solo e sua profundidade, permitindo identificar quando a saturação crítica se aproxima. Contudo, não basta instalar os dispositivos; é fundamental estabelecer níveis de alerta que mobilizem equipes de contenção”, alerta.
Sobre os inclinômetros, Camila comenta que estes dispositivos medem pequenos deslocamentos no solo, detectando movimentos antes que um deslizamento ocorra. “Normalmente, pequenos deslocamentos são perceptíveis antes que um grande deslizamento aconteça. Com essa tecnologia, é possível intervir antes que a encosta colapse completamente”, ressalta.
A Importância da Vegetação e das Políticas Habitacionais
Além das inovações tecnológicas, a preservação da vegetação nativa das encostas é uma estratégia eficaz de prevenção. A professora destaca: “Em áreas muito íngremes, o plantio de árvores com raízes profundas pode fortalecer a estabilidade do solo. Além disso, a vegetação atua como uma barreira, reduzindo a intensidade da chuva e os efeitos da erosão, que prejudicam o solo e fomentam deslizamentos. A vegetação também contribui para controlar a infiltração de água e a evapotranspiração local”.
Porém, para Camila, a solução para esses problemas é também social e política. “É necessário implementar não apenas políticas habitacionais, mas também planos de desenvolvimento urbano e diretrizes para infraestrutura. Todas as políticas ambientais e de gestão de riscos têm o papel de preparar o poder público para mitigar os impactos negativos, mesmo que não se possa eliminar completamente os riscos de deslizamentos”, conclui.

