Entendendo o Colesterol Alto e Seus Riscos
Cuidar dos níveis de colesterol no organismo vai muito além de observar um único número nos exames de sangue. Atualmente, a medicina destaca a importância de avaliar o risco cardiovascular de cada pessoa considerando fatores como idade, pressão arterial, diabetes, obesidade, histórico familiar e, claro, os níveis de lipídios no sangue. Essa abordagem mais abrangente e personalizada é reforçada pela nova Diretriz Americana de Dislipidemia de 2026, um documento fundamental para a cardiologia internacional.
A diretriz foi elaborada por 11 relevantes sociedades médicas e de saúde dos Estados Unidos, incluindo o Colégio Americano de Cardiologia (ACC), a Associação Americana do Coração (AHA) e a Associação Americana de Diabetes (ADA), além de entidades focadas em geriatria, prevenção, reabilitação cardiovascular e enfermagem. Esse amplo consenso reflete uma crescente preocupação global com o colesterol e a prevenção de infartos e AVCs.
Por outro lado, o Brasil parece estar em uma posição vantajosa nesse cenário. A Diretriz Brasileira de Dislipidemias, publicada em 2025, está em linha com as mais recentes evidências científicas e, em alguns pontos, supera as recomendações internacionais. Isso demonstra a qualidade da produção científica nacional e a seriedade com que o tema é tratado no país.
Prevenção: Um Passo Crucial Desde Cedo
Um dos aspectos mais relevantes das novas orientações é a ênfase na prevenção desde a infância. O colesterol alto não se torna um problema de forma abrupta; trata-se de um acúmulo silencioso ao longo do tempo. “O problema é que, quanto mais tempo uma pessoa fica exposta a níveis elevados de LDL, conhecido como colesterol ruim, maior a probabilidade de suas artérias endurecerem e formarem placas de gordura”, explica o cardiologista Francisco Saraiva, professor de pós-graduação da UNIFESP.
Esse processo pode culminar em infartos, AVCs e outras complicações graves. Por isso, a diretriz americana recomenda que todos os adultos realizem um perfil lipídico a partir dos 19 anos, com a necessidade de repetir o exame a cada cinco anos. Além disso, crianças entre 9 e 11 anos também devem ser submetidas a rastreamento universal para detectar precocemente possíveis alterações.
Embora essa proposta possa surpreender muitos, ela é bastante lógica. “Nessa faixa etária, é possível identificar alterações genéticas precoces, como a hipercolesterolemia familiar, uma condição silenciosa que aumenta significativamente o risco cardiovascular ao longo da vida”, enfatiza Saraiva. O Brasil também segue essa recomendação, com a diretriz nacional sugerindo a avaliação universal do perfil lipídico para crianças de 9 a 11 anos.
Calculando o Risco Cardiovascular com Precisão
Outro avanço significativo nas novas diretrizes está na avaliação do risco cardiovascular. Em vez de se concentrar apenas no colesterol, os médicos agora devem calcular a probabilidade de um paciente sofrer um evento cardiovascular nos próximos anos. A diretriz americana introduz as equações PREVENT-ASCVD, uma ferramenta moderna que classifica os pacientes em categorias de risco que variam de baixo a alto ao longo de um período de 10 anos, além de permitir uma análise mais abrangente de 30 anos.
Essa abordagem tem um impacto prático enorme. Por exemplo, uma pessoa com colesterol ligeiramente elevado, mas que apresenta obesidade, diabetes e hipertensão, pode exigir uma intervenção mais rigorosa do que outra com níveis semelhantes, mas sem fatores de risco adicionais. A diretriz brasileira, mais uma vez, se alinha a essa evolução, recomendando o uso do escore PREVENT em adultos que não têm histórico de doenças cardiovasculares.
Menos LDL é Sempre Melhor
Uma mensagem clara emergente tanto das diretrizes americana quanto brasileira é a de que, quando se trata de LDL, quanto mais baixo, melhor—especialmente para aqueles com risco aumentado. Isso não significa medicalizar toda a população, mas reconhecer que, para muitos, mudanças no estilo de vida podem não ser suficientes. “Em muitos casos, será necessário o uso de medicamentos para reduzir o colesterol de forma eficaz”, ressalta Saraiva, que também leciona na PUC-Campinas.
Nos Estados Unidos, as diretrizes enfatizam que pacientes em maior risco ou que já tiveram eventos cardiovasculares devem buscar uma redução de pelo menos 50% do LDL ou mantê-lo abaixo de 55 mg/dL, comprovando uma abordagem terapêutica proativa, sustentada por anos de evidências científicas.
Brasil Estabelece Metas Agressivas
É importante notar uma diferença significativa e favorável ao Brasil: a diretriz brasileira estabelece metas ainda mais rigorosas. Além da classificação de risco muito alto, ela introduz a categoria de risco extremo, destinada a indivíduos que já sofreram múltiplos eventos cardiovasculares. Para esses pacientes, a meta de LDL deve ser inferior a 40 mg/dL, colocando o documento brasileiro entre os mais protetores do mundo.
Além disso, o texto nacional também determina metas claras mesmo para indivíduos de baixo risco, melhorando a orientação na prática clínica. Outro destaque é a recomendação da dosagem da Lipoproteína(a), ou Lp(a), uma partícula que aumenta o risco de aterosclerose. Essa avaliação permite um acompanhamento mais eficaz e detalhado da saúde cardiovascular dos pacientes.
A Inflamação e seu Papel
A avaliação de marcadores inflamatórios, como a proteína C-reativa de alta sensibilidade, também é abordada nas diretrizes. Quando esse marcador apresenta elevações persistentes, pode indicar uma maior probabilidade de eventos, mesmo em indivíduos que não aparentam riscos significativos. Essa informação pode levar a uma reclassificação do risco e a um tratamento mais intensivo quando necessário.
Estatinas: Continuação do Tratamento Eficaz
Em resumo, todas essas atualizações convergem para uma mesma conclusão: a prevenção de doenças cardiovasculares exige estratégia, personalização e ação precoce. Não é suficiente esperar o aparecimento de um infarto para agir. Além disso, desinformações sobre o colesterol alto e as estatinas podem levar a percepções errôneas. De acordo com o médico nutrólogo José Ernesto dos Santos, professor da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da USP, as estatinas continuam sendo fundamentais no tratamento de milhões de pessoas no mundo. “Esses medicamentos são amplamente estudados, com benefícios comprovados na redução de infartos, AVCs e mortes cardiovasculares”, destaca.
No fim, a mensagem é clara: é fundamental identificar precocemente quem precisa de atenção, avaliar o risco cardiovascular de forma abrangente e agir com determinação quando necessário. As novas diretrizes americanas reforçam esse caminho, mostrando que, no Brasil, estamos bem alinhados e, em muitos aspectos, até à frente.

