Um Passo à Frente na Luta Contra o Câncer
CAMPINAS, SP (FOLHAPRESS) – A terapia com células CAR-T, uma inovação no tratamento de leucemias e linfomas, pode ser disponibilizada pelo SUS (Sistema Único de Saúde) em até dois anos, de acordo com o pesquisador Vauber Rocha, do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP (Universidade de São Paulo), que participa ativamente do desenvolvimento do projeto.
Essa nova abordagem terapêutica é resultado de um projeto emergente do campus de Ribeirão Preto da universidade, que busca criar uma produção própria das células CAR-T, visando minimizar os custos exorbitantes das terapias atualmente oferecidas no Brasil, que podem ultrapassar R$ 2 milhões. Se obtiver a aprovação necessária, a terapia será utilizada principalmente para o tratamento de linfomas e leucemias.
No Brasil, três produtos já receberam a validação da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária): Kymriah (tisagenlecleucel), fabricado pela Novartis; Yescarta (axicabtageno ciloleucel), da Gilead/Kite Pharma; e Carvykti (ciltacabtagene autoleucel), produzido pela Johnson & Johnson. A expectativa é que a nova terapia, com redução significativa de custo, represente uma mudança de paradigma no tratamento de doenças oncológicas.
Avanços e Estudos Clínicos
O projeto da USP Ribeirão destaca-se por sua independência em relação às tecnologias da indústria farmacêutica. Atualmente, a equipe realiza estudos clínicos e deve submeter os resultados à Anvisa dentro de aproximadamente um ano, conforme informou Rocha.
Durante o congresso Onco in Rio, que aconteceu nos dias 27 e 28 de março, Rocha compartilhou que Minas Gerais ocupa o segundo lugar no Brasil em casos estimados de leucemia. A terapia CAR-T é uma forma de medicina de precisão que consiste em retirar células do paciente e modificá-las geneticamente para que possam atacar e eliminar células cancerosas de forma mais eficaz.
“Nosso enfoque inovador mostrou resultados que se aproximam dos encontrados na literatura médica atual. O Ministério da Saúde investiu na pesquisa, permitindo a análise de um grupo de 81 pacientes”, comentou o pesquisador.
Resultados Promissores e Desafios Futuros
Dentre os pacientes envolvidos no estudo, 20 apresentaram melhorias significativas. Contudo, Rocha ressalta que os dados dos outros participantes ainda são confidenciais e só poderão ser divulgados após a submissão à Anvisa. Após essa etapa, a Conitec (Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no Sistema Único de Saúde) irá avaliar o custo-benefício do tratamento. A expectativa é que a nova terapia possa reduzir o custo atual em mais de R$ 1 milhão.
As investigações estão sendo realizadas em parceria com instituições respeitáveis, como os hospitais de clínicas de Ribeirão Preto e São Paulo, ambos da USP, além da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), Hospital Sírio Libanês e Beneficência Portuguesa.
O formato da terapia CAR-T proposta pelos pesquisadores se distingue das opções já disponíveis no mercado: “O princípio é o mesmo, porém os vetores virais e os anticorpos utilizados são diferentes. É uma nova abordagem para um conceito já estabelecido, e muito provavelmente, o custo será bem inferior ao dos produtos oferecidos pela indústria farmacêutica”, explicou Rocha.
Colaboração Internacional e Futuro Promissor
Os pesquisadores também anunciaram uma colaboração com a China para importar a tecnologia CAR-T destinada ao tratamento de mieloma múltiplo. Se aprovada pela Anvisa, com os testes clínicos realizados na China, essa terapia poderá ser integrada ao Brasil em um futuro próximo.
O Ministério da Saúde confirmou o aporte de R$ 1,48 milhão no estudo da USP e anunciou esforços para estabelecer uma rede nacional de terapia celular, incluindo as células CAR-T, com foco na ampliação da capacidade produtiva e na criação de infraestrutura qualificada por meio de modelos multicêntricos.
Entretanto, a adesão da nova terapia ao SUS está condicionada à avaliação da Conitec, uma vez que a Anvisa conceda a devida autorização para o tratamento.

