Inovadora Terapia Celular em Foco
Um novo tratamento utilizando células CAR-T pode ser disponibilizado no SUS (Sistema Único de Saúde) nos próximos dois anos, conforme estimativa de Vanderson Rocha, pesquisador do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP (Universidade de São Paulo). Rocha, que participa do desenvolvimento desse estudo, acredita que a nova terapia poderá revolucionar o tratamento de leucemias e linfomas no Brasil, uma vez que está sendo produzida localmente em Ribeirão Preto, reduzindo significativamente os custos.
Atualmente, as terapias com células CAR-T aprovadas pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) possuem um preço elevado, passando de R$ 2 milhões. Entre os tratamentos disponíveis, destacam-se o Kymriah (tisagenlecleucel) da Novartis, o Yescarta (axicabtageno ciloleucel) da Gilead/Kite Pharma e o Carvykti (ciltacabtagene autoleucel) da Johnson and Johnson. A expectativa é que a produção nacional possa oferecer um tratamento mais acessível e eficiente.
Desenvolvimento e Testes Clínicos Promissores
O projeto desenvolvido pela USP em Ribeirão Preto está sendo conduzido fora das tecnologias tradicionais da indústria farmacêutica. A pesquisa já se encontra em fase de testes clínicos, com apresentação prevista à Anvisa dentro de um ano. A informação foi compartilhada por Rocha durante o congresso Onco in Rio, realizado pela Rede D’Or em março. A terapia faz parte da medicina de precisão, que consiste em modificar geneticamente as células do próprio paciente para que estas se tornem capazes de atacar as células cancerosas.
Rocha comentou sobre os avanços: “Nós experimentamos uma nova forma de fazer e percebemos que os resultados ficaram parecidos ao que se tem na literatura a respeito”. O projeto recebeu um investimento de R$ 1,48 milhão do Ministério da Saúde, que possibilitou a análise de um grupo de 81 pacientes. Até o momento, 20 desses pacientes demonstraram melhora significativa em seus quadros.
Resultados e Expectativas Futuras
Os resultados referentes ao restante do grupo estão sob sigilo e só poderão ser divulgados após a solicitação de aprovação à Anvisa. A Conitec (Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no Sistema Único de Saúde) será responsável por avaliar a viabilidade econômica do tratamento, que, segundo estimativas, pode reduzir os custos atuais em mais de R$ 1 milhão.
A pesquisa está sendo realizada em diferentes instituições, incluindo o Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto e São Paulo, a Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), o Hospital Sírio Libanês e a Beneficência Portuguesa. Sobre a relação entre a nova terapia e as já existentes, Rocha destaca: “O princípio é o mesmo, mas o vetor viral é diferente, os anticorpos são diferentes. É como se fosse uma nova receita para um mesmo conceito, e com certeza, o valor deve ser bem inferior ao produto da indústria farmacêutica”.
Colaboração Internacional e Novas Possibilidades
Além disso, os pesquisadores da USP firmaram uma parceria com a China para a importação das CAR-T direcionadas ao BCMA, que já está em uso no país asiático. Essa tecnologia poderia abrir novas possibilidades de tratamento, incluindo para pacientes com mieloma. “Se aprovado pela Anvisa, com os testes clínicos realizados na China, o tratamento poderá ser disponibilizado no Brasil em breve”, acrescenta Rocha, embora ressalte que a Anvisa pode solicitar novos estudos antes de conceder a aprovação final.
O Ministério da Saúde, em comunicado oficial, expressou apoio ao projeto e reforçou o compromisso de estruturar uma rede nacional de terapia celular, com foco na terapia CAR-T, visando expandir a capacidade produtiva e a infraestrutura qualificada para esses tratamentos. Contudo, a incorporação ao SUS depende da análise criteriosa da Conitec após a validação pela Anvisa.

