Demanda Acirrada e Preços em Alta
A crescente demanda por carne bovina da China, aliada a uma oferta restrita de gado para abate, fez com que o preço do boi gordo atingisse um recorde histórico. No último dia, o indicador do boi gordo Cepea/Esalq, uma referência no mercado, registrou R$ 365 por arroba, um aumento de 2,53% apenas neste mês. Em um período de doze meses, a valorização chega a 12,5%.
O aquecimento no interesse por bovinos ocorre porque os frigoríficos se empenham em aumentar as exportações para a China, que se consolidou como o principal cliente do Brasil. A expectativa é que a cota de exportação, com tarifas reduzidas, seja totalmente preenchida até maio. Desde o início de 2023, o governo chinês impôs salvaguardas às importações de carne bovina de diversos países e estabeleceu uma cota de 1,1 milhão de toneladas para o Brasil, com tarifa de 12%. Para quantidades que ultrapassam essa cota, a taxa sobe para impressionantes 55%.
Expectativas do Setor
Roberto Perosa, presidente da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec), mencionou em um evento realizado pela Scot Consultoria em Ribeirão Preto (SP), que o Brasil deve preencher toda a cota de exportação para a China antes do início de maio. Ele ressaltou que os embarques de carne bovina aceleraram em março, especialmente após a decisão do governo federal de não implementar um sistema de controle para regular as exportações. Os dados indicam que, nos primeiros três meses do ano, mais de 40% da cota já havia sido utilizada.
No entanto, Perosa alertou que, até o momento, as autoridades chinesas não divulgaram os números referentes ao mês anterior. Especialistas entrevistados pelo Valor Econômico indicam que os preços da carne devem permanecer elevados até que a cota chinesa seja completamente preenchida. Thiago Bernardino, pesquisador do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), mencionou que, embora possa ocorrer volatilidade após o preenchimento da cota, a oferta restrita de carne em regiões como os Estados Unidos — que enfrenta o menor rebanho bovino em décadas — deve limitar quedas nos preços.
Impacto das Cotas e Desafios Futuros
No Brasil, a quantidade de gado disponível segue ajustada, o que traz pressão para a alta nos preços. De acordo com Alcides Torres, diretor da Scot Consultoria, as cotas impostas pela China mudaram significativamente a dinâmica do mercado, acelerando a compra de gado para abate e a subsequente exportação de carne. Dados divulgados pela Secretaria de Comércio Exterior (Secex) mostram que as exportações de carne bovina in natura totalizaram 233,95 mil toneladas em março, um crescimento de 8,6% em relação ao ano anterior, com o preço médio subindo 18,7%, alcançando US$ 5.814,80 a tonelada.
Perosa ainda destacou que a questão das cotas chinesas é atualmente uma preocupação central do setor, pois as negociações para revisão do volume não avançaram, e novas aberturas de mercado para compensar a carne que deixaria de ser enviada à China não estão à vista. A cota reduziu significativamente o espaço para a carne brasileira no mercado chinês, considerando que em 2025 a China havia importado 1,68 milhão de toneladas.
Perspectivas de Mercado
Perosa expressou ceticismo sobre a possibilidade de viabilizar uma triangulação para exportação da carne para a China via Vietnã ou Hong Kong, uma vez que o primeiro país consome principalmente carne de búfalo, e o segundo importa miúdos do Brasil, enviando-os depois para a China. Ele ainda observou que o sistema de cotas criado por Pequim deve se manter em vigor até 2028, exigindo que o Brasil continue buscando alternativas eficazes de mercado.
O dirigente argumentou que a justificativa da China para as cotas é essencialmente política, sem um suporte técnico substancial, já que a pecuária chinesa não consegue competir em termos de preços. “A salvaguarda afeta todos os países, mas o Brasil foi o mais impactado. Acreditamos que a China pensou que poderia extrair mais do Brasil, dado que exportamos muitas outras commodities, como a soja. No entanto, isso impacta imensamente o nosso setor, uma vez que 46% das nossas exportações de carne bovina foram destinadas à China no ano passado”, lamentou.
Por fim, Perosa defendeu que o caminho é continuar negociando e buscar novos mercados com grande demanda por carne bovina, além de investir em produtividade. Apesar das mudanças nas dinâmicas de vendas externas, não há sinais de alteração nas intenções de confinamento de gado para 2026. Alcides Torres, da Scot, afirmou que as estimativas apontam para um número entre nove e dez milhões de cabeças confinadas, o que não está relacionado diretamente à pressão das cotas chinesas. Eventos como a Copa do Mundo e as eleições podem, por sua vez, estimular o consumo interno, contribuindo para a continuidade dos investimentos no setor.

