Cacto Mandacaru: Um Ícone de Resistência e Beleza
Morador de Ribeirão Preto, o aposentado Anésio Barão Parisi, vive há cerca de dez anos em sua residência, onde um impressionante cacto mandacaru chama atenção. Desde a sua mudança, a planta não apenas se manteve, mas cresceu consideravelmente. “Ele mudou muito pouco, mas ganhou cerca de um metro em altura, e parece ser bem antigo aqui no local”, compartilha Anésio.
Em entrevista ao G1, o botânico Milton Groppo, professor do Departamento de Biologia da USP em Ribeirão Preto, esclarece que o cacto em questão é da espécie Cereus jamacaru. Este tipo de cacto pode ter se desenvolvido ao longo de décadas, muitas vezes sem ser notado. “É um exemplar introduzido, nativo da caatinga e de áreas de cerrado, incluindo rochas, e também é encontrado em outros países da América do Sul”, explica.
Crescimento e Adaptação em Diferentes Climas
O tamanho do cacto realmente impressiona. Milton destaca que exemplares dessa estatura são raros fora do bioma da caatinga, onde, devido às características climáticas como chuvas irregulares e secas, esses cactos podem alcançar até dez metros de altura. Segundo o biólogo, o crescimento do cacto está intimamente ligado ao regime de chuvas.
No Sudeste, região onde a precipitação é maior, o crescimento pode ser um pouco mais acelerado nos estágios iniciais, mas ainda assim, o desenvolvimento completo da planta leva décadas. “No seu habitat natural, a caatinga, o crescimento é determinado pelos ciclos de chuva, com a vegetação se desenvolvendo principalmente durante as estações chuvosas. Em outras regiões, como aqui, o crescimento pode ser mais rápido no início, caso o solo seja profundo e bem drenado”, detalha Milton, acrescentando que esse cacto pode ter ao menos 30 anos.
Florescimento e Importância Cultural
O mandacaru, apesar de seus espinhos, apresenta flores grandes e brancas uma vez por ano, geralmente no período de transição entre a primavera e o verão. As flores abrem apenas à noite e permanecem visíveis por um curto espaço de tempo. Anésio destaca a beleza da planta em flor: “Ele só fica realmente bonito quando floresce”.
O cacto mandacaru possui um papel significativo na cultura nordestina, sendo considerado um símbolo da caatinga. Sua presença é frequentemente mencionada em músicas populares brasileiras, como as de Luís Gonzaga e Chico César. “O mandacaru é uma planta fundamental na cultura, eternizada em letras de músicas e poesias que refletem a vida e a resistência no sertão”, ressalta o pesquisador.
Usos Econômicos e Medicinais
Além de seu valor cultural, o mandacaru é conhecido por suas propriedades econômicas e medicinais. Ele pode ser utilizado como cerca viva e em remédios caseiros para diversas doenças, desde problemas respiratórios até inflamações e feridas na pele. Milton também comenta que a planta produz frutos comestíveis, que servem de alimento para a fauna local e, no semiárido nordestino, são utilizados como forragem para os animais durante períodos de seca.
Resistência e Desafios Ambientais
A resistência do mandacaru é notável. Segundo Milton, a planta é rústica e de fácil manutenção, requerendo pouco mais do que sol direto e um solo bem drenado. Ele explica que o cacto suporta longos períodos de seca sem apresentar danos aparentes. Anésio, por sua vez, confirma que seu mandacaru não sofre mesmo durante as estiagens severas. “Nunca precisei cuidar dele de forma especial. Ele é realmente bem resistente. Mesmo na seca, não sente”, afirma.
Entretanto, essa espécie enfrenta desafios ambientais. Embora atualmente não esteja classificada como ameaçada de extinção, o mandacaru sofre pressão devido ao desmatamento excessivo e ao uso intensivo como forragem nas regiões onde cresce naturalmente. Milton conclui que, apesar da resistência da planta, é preciso estar atento aos impactos ambientais que podem ameaçar essa e outras espécies.

