Transformação Cultural no Consumo de Café
A cultura do café no Brasil está passando por uma revolução nos últimos sete anos, impulsionada pela ascensão dos cafés especiais e de um novo tipo de estabelecimento que valoriza a bebida como uma experiência cultural. O fenômeno se alinha com a transição do país para a chamada “Quarta Onda”, um movimento que busca democratizar o consumo do café, com ênfase em sustentabilidade, rastreabilidade e inovações tecnológicas.
Um exemplo emblemático dessa nova era é o Café di Preto, fundado em 2020. O empresário por trás do projeto, Brandão, tem como missão promover a valorização de produtores negros na cadeia produtiva do café. Em suas redes sociais, ele também destaca a importância de conectar o consumo da bebida com a identidade e a história do Brasil.
“Eu não sabia nada sobre a produção do café e seu papel na nossa cultura. Quando comecei a pesquisar sobre referências de pessoas negras nessa história, percebi que o retrato era distorcido. A população negra era frequentemente associada apenas à escravidão e à mão de obra forçada nos cafezais,” afirma Brandão.
Descompasso no Mercado de Cafés
Ainda segundo especialistas, a Quarta Onda do café no Brasil avança lentamente em comparação a países como Estados Unidos e na Europa. O Brasil, que é o maior exportador de café, ainda prioriza o chamado “café commodity”, caracterizado por grãos padronizados e comercializados em larga escala a preços acessíveis. Os lotes de maior qualidade, que exigem mais cuidado e têm um potencial sensorial superior, são, em sua maioria, destinados ao mercado internacional.
Um estudo recente da Associação Brasileira da Indústria de Café (Abic) revela que quase 60% do café consumido no Brasil está concentrado nas categorias Tradicional (39%) e Extraforte (20%), ambas ligadas a grãos de qualidade inferior e torra intensa. Isso se reflete diretamente no paladar dos brasileiros, que, acostumados a um café mais escuro e amargo, moldam suas preferências em torno desse gosto forte.
Novos Rumos e Estilos de Vida
Em 2024, os cafés especiais representaram apenas 1% do consumo nacional, conforme indica o mesmo relatório da Abic. Apesar desse percentual reduzido, a comunidade que aprecia cafés especiais tem se mobilizado, utilizando as redes sociais para promover um novo estilo de vida relacionado ao café.
A barista e especialista em cafés especiais, Amanda Demetrio, destaca: “O Brasil está vivenciando uma mudança cultural em relação ao consumo de café. A bebida deixou de ser apenas um estímulo e passou a ser uma pausa, um momento de prazer.” Embora essa transformação não se traduza em um aumento significativo no mercado, ela representa uma tendência crescente. “Consideramos que ainda estamos no início de uma nova história. Estamos moldando uma identidade e experimentando novos protocolos,” acrescenta.
Demetrio, que ministra cursos de formação sensorial para baristas, percebe uma mudança no perfil dos alunos. “Não são apenas profissionais do setor; muitos consumidores comuns estão buscando aprender mais sobre café e aprimorar sua experiência,” explica. Desde que começou a ensinar, em 2022, o número de alunos em suas turmas aumentou, refletindo um interesse crescente por café de qualidade e a abertura de novas torrefações e cafeterias, mesmo diante do aumento dos preços do café.
Educação e Inclusão no Mercado de Cafés
Alberto Sampaio, que idealizou a Tábikòfi, uma cafeteria com torrefação própria localizada na Zona Portuária do Rio de Janeiro, defende que o avanço da Quarta Onda depende de um contínuo “trabalho pedagógico” com o público. O nome de sua marca, que significa “o café” em iorubá, reflete essa preocupação com a inclusão e a acessibilidade no universo do café.
“Aqui, atendemos pessoas que entram com pouquíssimas referências e saem com novas expectativas,” compartilha Sampaio. Ele observa que, ao retornarem, os clientes demonstram um interesse maior por cafés de determinadas regiões, como Mantiqueira ou Bahia, e começam a entender melhor as nuances de torra e as características sensoriais dos grãos.
Ele classifica seus clientes em três grupos: aqueles sem referências de bom café, os que já têm alguma experiência, e os chamados “tough lovers”, que são consumidores mais exigentes. Embora ainda em menor número, o grupo intermediário está crescendo rapidamente. “Cerca de metade do público que chega à Tábikòfi por meio das redes sociais vem em busca de qualidade,” revela Sampaio, enfatizando a importância de uma abordagem sem esnobismo. “Não queremos que as pessoas sintam vergonha de pedir açúcar, mas também mostramos por que experimentar o café puro pode revelar outras camadas de sabor.”
O Café como Símbolo de Autocuidado
A empresária Juliana Ganan, autora do livro “Por trás da sua xícara”, observa que a busca por cafés especiais se tornou um símbolo de autocuidado. “É um ritual – a pessoa acorda, escolhe o grão, mói seu próprio café e prepara a bebida. São momentos de atenção plena antes de iniciar o dia. Isso traz um aspecto contemplativo e ajuda a desacelerar antes da rotina,” explica. Com mais de dez anos à frente da Tocaya Torrefadores de Café, no sul de Minas Gerais, Ganan acredita que as redes sociais têm contribuído para desmistificar a ideia de que o universo do café especial é inacessível ou excessivamente técnico.

