Entendendo a Autoclassificação Política dos Eleitores
O cenário político brasileiro tem se mostrado cada vez mais complexo, especialmente com as eleições de 2026 se aproximando. Recentemente, um estudo do Datafolha gerou discussões ao apontar que 34% dos autodenominados petistas se consideram posicionados à direita, enquanto 14% dos bolsonaristas se veem à esquerda do espectro político. Esses dados instigam a reflexão sobre o que realmente significa ser ‘de direita’ ou ‘de esquerda’ no Brasil atual.
É importante, no entanto, considerar a metodologia utilizada na pesquisa. As escalas de autoclassificação, tanto para bolsonaristas quanto para petistas, são de cinco pontos, enquanto a escala utilizada para definir esquerda e direita é de sete. Isso pode gerar confusões, especialmente para os entrevistados com menos acesso à educação e informação.
A Metodologia das Perguntas e Suas Implicações
A primeira questão da pesquisa apresenta um detalhe notável: ao se referir aos petistas, o instituto optou por usar a expressão “petista” (somando os pontos 4 e 5 da escala), ao invés de “lulista”, que seria um contraponto mais esperado ao termo “bolsonarista” (soma dos pontos 1 e 2). Essa diferenciação, por si só, pode influenciar as respostas.
Na segunda questão, a ordem das respostas também é inversa. Aqui, a direita ocupa as posições com os valores mais altos, diferentemente do que ocorre na pergunta anterior. A posição 1 e 2 é considerada de esquerda, enquanto as posições 6 e 7 são vistas como de direita, com as intermediárias representando variações de centro.
Essas nuances na formulação das perguntas podem provocar ruído na interpretação dos resultados, especialmente em segmentos da população com menor nível educacional.
Histórico da Autoclassificação Política no Brasil
Para entender os dados atuais, é pertinente olhar para o passado. Entre 1989 e 1993, o Datafolha, em parceria com a USP e Cebrap, realizou estudos sobre a cultura política dos brasileiros. Na época, perguntas abertas revelavam que muitos cidadãos não tinham clareza ou apresentavam definições confusas sobre o que significava ser de esquerda ou de direita, frequentemente associando a esquerda ao negativo e a direita ao que é certo e positivo.
Estudos subsequentes demonstraram uma correlação entre a autoclassificação política e os resultados eleitorais, o que indica uma certa “intuição ideológica” entre os brasileiros. O cientista político André Singer, em um artigo publicado na revista do Centro de Estudos de Opinião Pública da Unicamp (Cesop), analisou essa evolução desde 1989, destacando uma predominância histórica da direita e centro-direita até um recuo entre 2006 e 2014, período em que o lulismo pareceu desativar essa predisposição ideológica. A eleição de Bolsonaro em 2018 trouxe uma nova onda conservadora, fazendo com que a autodenominação da direita crescesse para 47%.
A Influência dos Valores na Classificação Ideológica
A análise dos dados sugere que a matriz conservadora está profundamente entrelaçada na escolha de voto e na autoclassificação ideológica. As pesquisas indicam que muitos brasileiros valorizam aspectos como a família, a fé, e o trabalho, além de se oporem à legalização das drogas e defenderem a redução da maioridade penal. Essa visão pode levar muitos a se identificarem como de direita, mesmo se declarando petistas, pois defendem direitos trabalhistas e o papel dos sindicatos, ao contrário de uma visão mais liberal.
A influência dos valores, especialmente entre a população evangélica, foi determinante na eleição de Bolsonaro em 2018. Contudo, essa influência cedeu espaço ao desejo de satisfação do eleitor em 2022, quando Lula foi eleito novamente, impulsionado por seu histórico de atuação na área social. À medida que nos aproximamos de 2026, fica claro que os eleitores buscarão segurança em várias esferas, em um mundo repleto de incertezas.
Por MAURO PAULINO, comentarista político, especialista em opinião pública e eleições.
Por ALESSANDRO JANONI, diretor de pesquisas da consultoria Imagem Corporativa. Ambos foram diretores do Datafolha.

