Investigações Revelam Irregularidades em ONGs
Uma análise realizada pelo GLOBO revelou que o repasse recorde de R$ 1,7 bilhão em emendas parlamentares durante 2025 beneficiou diversas Organizações Não-Governamentais (ONGs) que não possuem sede, funcionários ou a capacidade técnica necessária para executar os projetos para os quais foram contratadas. Na prática, muitas dessas entidades atuaram apenas como intermediárias, possibilitando a liberação de verbas a terceiros. O levantamento destaca que, apesar de serem as destinatárias formais dos recursos, a atuação real dessas ONGs levanta várias questões sobre a transparência e a eficácia do uso dos recursos públicos.
O estado do Rio de Janeiro lidera a lista das regiões que mais receberam repasses no período de 2019 a 2025, totalizando R$ 951,9 milhões. O Distrito Federal e São Paulo vêm em seguida, com R$ 606 milhões e R$ 589,7 milhões, respectivamente. Além disso, o relatório aponta que o deputado Dani Cunha (União-RJ) direcionou R$ 6,4 milhões para uma dessas entidades, levando a uma análise da Controladoria-Geral da União (CGU), que avaliou um “potencial prejuízo” de R$ 493 mil devido a superfaturamento e inexecução de contratos, como na compra de materiais que nunca chegaram às mãos dos beneficiários.
Embora a ONG tenha afirmado ter devolvido a verba apontada como superfaturada, a visita de técnicos revelou que muitos materiais, já pagos, estavam ausentes no local. Alunos e professores relataram que os equipamentos, supostamente adquiridos, nunca foram distribuídos.
Procurados pelo GLOBO, tanto Dani Cunha quanto Juninho do Pneu não comentaram sobre as denúncias. A ONG, por outro lado, se defendeu afirmando que a verba foi devolvida e que as observações feitas pela CGU representam oportunidades legítimas de aprimoramento no gerenciamento.
ONGs com Estruturas Questionáveis
Em uma investigação separada, em Fortaleza, auditores descobriram uma ONG que recebeu R$ 15,2 milhões em emendas nos últimos cinco anos, mas que não apresentava indicativos de atividades, como funcionários ou estrutura de operação. O Instituto Future de Juventude, Promoção, Turismo, Cultura e Desenvolvimento Sustentável, que recebeu R$ 7,8 milhões do deputado Moses Rodrigues (União-CE), também não demonstrou atividade em suas instalações, onde apenas uma impressora estava presente.
O relatório da CGU, que também foi enviado à Polícia Federal, apontou que a entidade não possuía funcionários registrados e não tinha registro formal de funcionamento. Observou-se que o Instituto atuava como intermediário, subcontratando outras empresas que, segundo a CGU, também careciam de estrutura para realizar os serviços.
Moses Rodrigues, ao ser questionado sobre as denúncias, declarou que não tinha conhecimento de irregularidades e afirmou que, após a conclusão da auditoria, tomaria as medidas necessárias para garantir esclarecimentos.
Subcontratações Levantam Suspeitas em SP
No ABC Paulista, o Instituto Mogiano de Pesquisa, Educação e Cultura (Impec) recebeu R$ 1,5 milhão em emendas, sendo R$ 500 mil direcionados pelo deputado Orlando Silva (PCdoB-SP) para projetos na cidade. Mais uma vez, a análise revelou que a ONG não possuía equipe própria nem estrutura física, executando seus projetos apenas por meio de subcontratações.
Orlando Silva enfatizou que a escolha da prefeitura foi realizar uma seleção pública para eventos esportivos, prática comum e legal. Ele também confirmou que a prestação de contas foi questionada, resultando na devolução dos recursos por parte dos executores, conforme estabelecido pela CGU.
A prefeitura de Suzano, por sua vez, defendeu a regularidade dos repasses e a experiência prévia da instituição na execução de projetos culturais. A câmara e o senado também foram contatados e afirmaram que as regras para repasses de emendas para ONGs estão sendo aprimoradas, com foco na transparência e controle dos recursos públicos.

