Desafios da Política Fiscal Brasileira
A recente análise do presidente do Bradesco destaca preocupações significativas sobre a situação fiscal do Brasil. Em um contexto de geopolítica mundial cada vez mais complexa e o avanço da inteligência artificial, a política fiscal do país se apresenta como um desafio crucial. Segundo ele, as previsões indicam que o PIB global deve crescer cerca de 3,3% em 2025 e 3,2% em 2026, revelando que, apesar de um cenário incerto, a economia brasileira ainda deve crescer a um ritmo mais lento, limitado a aproximadamente 1,5% em 2026.
Esse crescimento modesto ocorrerá mesmo com um nível de desemprego relativamente baixo, estimado em 5,5%. A análise sugere que a massa salarial continuará a crescer, impulsionada principalmente pelo aumento dos salários. No entanto, os investimentos devem permanecer reprimidos, com um crescimento estimado em cerca de 0,5% em 2026. Essa expansão se deve em grande parte a iniciativas do setor público, uma vez que muitos municípios e estados estão em situação financeira favorável.
O presidente do Bradesco observou que a inflação deve se alinhar às metas estabelecidas, especialmente com um IPCA projetado para 3,8% em 2026. Além disso, a Selic deve ser reduzida para aproximadamente 12%, embora ainda represente uma taxa de juros real em torno de 9%. A instabilidade típica de anos eleitorais pode inibir temporariamente os investimentos do setor privado, acentuando a volatilidade do mercado.
Expectativas e Desafios no Mercado de Capitais
Durante 2025, as captações no mercado de capitais cresceram em torno de 6%. Com as expectativas de fechamento do ano, espera-se um volume superior a R$ 700 bilhões, um patamar que se assemelha ao de 2024. Contudo, para 2026 há previsão de uma queda de 10% a 20% nesse volume, fortemente influenciada pela proximidade das eleições, o que pode gerar mais incertezas.
Recentemente, o Bradesco realizou uma emissão no mercado de US$ 750 milhões, que atraiu compradores, demonstrando uma demanda robusta. A América Latina, de forma geral, teve um desempenho positivo em emissões, beneficiada pela expectativa de cortes de juros nos Estados Unidos. No entanto, para 2026, a previsão de captações ficará entre US$ 20 bilhões e US$ 25 bilhões, o que representa uma diminuição significativa em relação ao ano anterior.
Impacto nas Empresas e Perspectivas Futuras
O cenário atual aponta para uma desaceleração na economia, com um crescimento projetado de 4,8% em 2026, em comparação com um aumento de 8% em 2025. As empresas devem enfrentar um ambiente mais desafiador, com a expectativa de crescimento na pessoa física caindo de 10,5% em 2025 para cerca de 9% no próximo ano.
Um fator a ser considerado é a inibição de investimentos e a diminuição do apetite por riscos em determinados setores. A situação das empresas, especialmente no agronegócio em algumas regiões, também exige atenção, uma vez que muitas delas se deparam com um histórico de endividamento elevado. Uma taxa de juros real alta torna o cenário ainda mais complicado para empresas que já operam com margens comprimidas.
Não obstante, a defesa do papel do Banco Central é uma questão relevante. A diretoria do Bradesco enfatizou a importância de respeitar os aspectos técnicos nas decisões monetárias, com um olhar atento às implicações que possam advir das discussões sobre justiça e economia.
A Necessidade de Estabilização da Dívida Pública
O Brasil enfrenta um desafio institucional significativo em sua política fiscal, refletindo um nível de dívida pública que já ultrapassa 80% em relação ao PIB. O foco nos próximos anos deverá ser a estabilização dessa dívida, ao mesmo tempo em que se busca uma redução nas taxas de juros, que são uma pressão adicional sobre o endividamento. A combinação de um controle efetivo da dívida com um ajuste nas linhas de gasto público será crucial.
O cenário ideal para o Brasil seria ver a dívida pública não apenas estabilizada, mas reduzida, embora a estabilização seja um passo crítico a ser alcançado. É imperativo evitar um cenário onde a dívida continue a aumentar, pois isso pode pressionar o câmbio e a inflação, afetando negativamente o valor dos ativos. Para que o Brasil possa desfrutar de um crescimento sustentável, seria necessário um crescimento anual de 3% e uma taxa de juros em torno de 3%, o que parece uma meta desafiadora, mas essencial para a saúde econômica do país.

