Reflexões sobre o Impacto das Premiações no Cinema
Após o sucesso de ‘Ainda Estou Aqui’, que levou o Oscar de Melhor Filme Internacional em 2025, o Brasil se prepara para apresentar uma nova obra na disputa. Desta vez, ‘O Agente Secreto’, dirigido por Kleber Mendonça Filho, surge como uma forte candidata. A lista dos indicados será revelada nesta quinta-feira (22), e o filme conta com a vantagem de ter conquistado recentemente dois Globos de Ouro: um na categoria de melhor filme em língua não inglesa e outro para o ator Wagner Moura. Apesar das premiações serem significativas, Rogério de Almeida, professor da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo, ressalta que filmes são expressões artísticas que vão além da competição. Segundo ele, é como comparar poemas: é difícil definir qual é melhor entre os de Carlos Drummond de Andrade e Manuel Bandeira.
De acordo com Almeida, a diversidade artística e estética dos filmes é mais importante do que a disputa presente em festivais, que muitas vezes é guiada por interesses comerciais. Ele acredita que esses eventos funcionam mais como uma vitrine para exibir obras do que como um verdadeiro julgamento sobre quais produções são as melhores. “Grandes filmes da história do cinema, frequentemente, não são reconhecidos em festivais, enquanto outros vencedores são rapidamente esquecidos”, analisa.
A Relevância do Oscar no Cenário Cinematográfico
O Oscar, embora seja o mais reconhecido dos prêmios cinematográficos, pode não ser o mais relevante em termos de contribuição estética, de acordo com Almeida. Ele argumenta que a indústria de Hollywood é frequentemente o centro do debate, enquanto filmes de alta qualidade de outras partes do mundo lutam por reconhecimento em categorias secundárias. Em suas 96 edições, apenas 16 filmes de língua não inglesa foram indicados ao prêmio de melhor filme, e ‘Parasita’, da Coreia do Sul, é um dos poucos a ter conquistado esse reconhecimento em 2020.
A categoria de melhor filme internacional, para Almeida, é curiosa. Ela perpetua a ideia de que os filmes norte-americanos são os melhores do mundo, relegando os demais a uma competição separada. No entanto, o processo de seleção para essa categoria, feito por cada país, acaba atraindo bilheteiras e atenção para as produções nacionais. ‘Ainda Estou Aqui’, que venceu a categoria, é um exemplo de como isso pode impactar positivamente o cinema local.
“O Oscar tem um poder de penetração muito grande. Quando a Argentina ganhou, isso aumentou a visibilidade do cinema argentino e estimulou a produção local”, complementa Almeida. Filmes como ‘Dahomey’ (Senegal) e ‘Grand Tour’ (Portugal) também ganharam destaque nas seleções de 2025, mesmo sem serem indicados.
A Relação entre Cinema e Literatura
Almeida observa que a relevância do Oscar para o cinema brasileiro pode resultar em mais investimentos e produções locais. “Ganhar um Oscar simboliza que o cinema brasileiro está entre os melhores do mundo”, afirma. ‘Ainda Estou Aqui’, adaptado do livro de Marcelo Rubens Paiva, ganha uma dimensão poderosa, pois se baseia em uma história real e de um autor respeitado. Essa narrativa traz um peso histórico e memorialístico que a obra de Walter Salles apresenta de forma impactante.
Essa relação entre cinema e literatura é antiga e permeia a história do cinema. Almeida explica que, desde os primórdios, o cinema se voltou para a narrativa. A adaptação de obras literárias é uma prática comum, e filmes famosos frequentemente têm suas raízes na literatura. “As adaptações cinematográficas não devem ser vistas como inferiores, mas como uma arte distinta que também conta histórias de maneira única”, conclui.
Outros Festivais de Cinema em Perspectiva
Além do Oscar e do Globo de Ouro, Almeida destaca a existência de outros festivais, como os de Cannes, Berlim e Veneza. Esses eventos, com uma perspectiva europeia, promovem produções que priorizam a forma artística, mesmo que muitos filmes premiados neles não sejam considerados para o Oscar. Ele observa que a rivalidade é evidente entre os críticos, sendo Cannes visto como mais respeitável que o Oscar, que possui um caráter mais comercial.
Ainda há festivais menores que focam no cinema independente, como Sundance, que promovem temáticas específicas. Além disso, existem mostras sem caráter competitivo que abordam questões sociais, como a Mostra Internacional do Cinema Negro, que, anualmente, expõe filmes que tratam do cinema negro e da representatividade.
Esses festivais têm um papel importante na promoção de novas pautas e discussões, tanto do ponto de vista artístico quanto político, contribuindo para a construção de imaginários sobre questões relevantes na sociedade contemporânea.

