Entenda como a ocupação humana e a memória ecológica afetam os ecossistemas aquáticos
A maneira como o ser humano ocupa e transforma a terra deixa marcas profundas que vão além das paisagens visíveis. Os cursos d’água que cortam essas áreas, como rios e riachos, carregam indícios de intervenções humanas que, embora não sejam imediatamente percebidos, podem ser revelados por meio de estudos detalhados. Essas modificações vão desde o avanço da agricultura até a redução da vegetação nativa. Uma pesquisa realizada no Instituto de Biociências da Universidade Estadual Paulista (Unesp), em Rio Claro, destaca a relevância de compreender a chamada ‘memória ecológica’ como uma estratégia crucial para planejar ações de conservação.
O estudo foi liderado por pesquisadores do Laboratório de Ecologia de Comunidades Aquáticas, sob a coordenação do biólogo Tadeu Siqueira, do Centro de Pesquisa em Biodiversidade e Mudanças do Clima (CBioClima). A investigação explorou como as alterações no uso da terra impactam a biodiversidade e o funcionamento dos cursos d’água ao longo do tempo, revelando que os efeitos nem sempre são imediatos. O passado, de fato, pode influenciar a saúde dos ecossistemas aquáticos durante décadas.
Rios e riachos: guardiões de um passado ecológico
Apesar de rios e riachos não terem uma memória no sentido humano da palavra, os pesquisadores utilizam o conceito de ‘memória ecológica’ para descrever os efeitos acumulativos das transformações ambientais. Essas marcas se manifestam na composição das comunidades aquáticas, na qualidade da água e na capacidade que esses ecossistemas têm de responder a novas pressões ambientais. Segundo Siqueira, a biodiversidade atualmente presente em um rio não reflete apenas as condições atuais ao seu redor, mas é o resultado de uma série de eventos passados, especialmente aqueles relacionados às mudanças no uso da terra.
A pesquisa examinou 101 riachos na bacia do rio Corumbataí, localizada no interior de São Paulo, uma área marcada por intensa atividade agrícola e transformações significativas ao longo do último século. Para reconstruir a história da paisagem, os cientistas recorreram a informações do MapBiomas, que rastreia o uso e a cobertura do solo no Brasil desde 1985, além de dados ambientais coletados em campo durante mais de 30 anos.
Insetos aquáticos: bioindicadores do estado ambiental
Um dos fundamentos da pesquisa foi a utilização de insetos aquáticos como bioindicadores do estado ambiental. Embora a água doce cubra menos de 1% da superfície terrestre, abriga cerca de 10% de todas as espécies animais do planeta. Destes, os insetos representam aproximadamente 80% da diversidade aquática. Esses organismos reagem de forma sensível a variações ambientais, incluindo poluição, mudanças na vegetação e oscilações na qualidade da água.
A equipe coletou e catalogou milhares de espécimes pertencentes a diferentes grupos de insetos, incluindo aqueles altamente sensíveis a distúrbios e outros mais resistentes. A presença ou ausência de determinadas espécies permitiu que os cientistas avaliassem o estado ecológico dos riachos e relacionassem esses dados ao histórico de uso da terra na bacia. Siqueira ressalta que, devido à vasta diversidade de insetos aquáticos, o estudo foi capaz de identificar quais grupos indicam ambientes mais preservados e quais são típicos de áreas degradadas, revelando padrões que poderiam passar despercebidos em apenas análises da água.
A importância do legado do uso do solo
Uma das descobertas mais significativas da pesquisa desafia as noções convencionais sobre conservação. Os cientistas observaram que a composição total do uso do solo na bacia hidrográfica — que inclui áreas ocupadas por agricultura, pastagem, urbanização e vegetação nativa — impacta a biodiversidade aquática mais do que a simples proximidade dessas atividades em relação aos cursos d’água. Em resumo, não é apenas a proximidade da floresta ao riacho que importa, mas quanto da paisagem ainda se mantém preservada.
Outro ponto importante abordado pelo estudo é que a memória ecológica possui limites temporais. Em regiões onde as transformações no uso da terra ocorreram há muito tempo, como algumas áreas no Estado de São Paulo, os ecossistemas aquáticos tendem a ser dominados por espécies generalistas, mais capazes de sobreviver em diferentes condições. Nesses contextos, os vestígios do passado se tornam mais difíceis de identificar.
Por outro lado, em regiões com mudanças mais recentes, como partes do Mato Grosso e de Rondônia, os efeitos históricos são mais evidentes, facilitando a identificação de como o uso da terra molda a biodiversidade dos rios. Siqueira adverte que ignorar a memória ecológica pode levar a conclusões equivocadas, atribuindo a perda da biodiversidade apenas a fatores contemporâneos, quando, na verdade, os problemas começaram muito antes.
Assim, a preservação e a recuperação de matas ciliares continuam sendo fundamentais, uma vez que atuam como filtros naturais, minimizando a entrada de sedimentos e poluentes nos rios, estabilizando as margens e garantindo condições ideais para a vida aquática. Contudo, considerando que, na bacia do Corumbataí, áreas de cultivo de cana-de-açúcar e pastagens dominaram por décadas, isso por si só não é suficiente para reverter os danos causados.
O pesquisador enfatiza que reconhecer a existência de um legado do uso do solo é essencial para tomadas de decisões mais eficazes. Entender o passado é fundamental para definir prioridades e estabelecer expectativas realistas sobre os resultados das iniciativas de conservação.

