Impactos da Aceleração de Conteúdos
A aceleração de vídeos e áudios tem se tornado uma prática cada vez mais comum entre os internautas, especialmente os jovens. Plataformas como WhatsApp, TikTok e Instagram agora oferecem a opção de aumentar a velocidade de reprodução para 1,5x ou 2x. Embora possa parecer uma maneira inofensiva de economizar tempo ou aumentar a produtividade, essa prática pode representar riscos sérios para o cérebro humano.
Ao acelerar os conteúdos, o cérebro do usuário muda a forma como processa e armazena informações, comprometendo sua capacidade de concentração. Mário Glória Filho, psicólogo especializado em terapia cognitivo-comportamental, comentou em entrevista ao Jornal da USP que, embora muitos vejam a aceleração como uma solução para evitar o tédio, o efeito é exatamente o oposto. “Quanto mais a pessoa acelera ou pula, mais entediada e insatisfeita ela tende a se sentir. A experiência fica menos envolvente”, afirma o especialista.
Em situações isoladas, acelerar vídeos e áudios pode não trazer grandes prejuízos, mas a repetição dessa prática pode afetar a saúde mental. Com o aumento do fluxo de conteúdos em um curto espaço de tempo, o cérebro é sobrecarregado com diversas informações simultaneamente, resultando em uma carga mental excessiva. Isso provoca a sensação de “cabeça saturada”, irritação, dificuldades de concentração e até sintomas de ansiedade.
Como o Cérebro é Impactado pela Aceleração
A professora Flávia Marucci, da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) da USP, detalha como a aceleração de conteúdos impacta o cérebro. Quando assistimos a vídeos, duas áreas do cérebro são ativadas: o sistema límbico, ligado à regulação das emoções e memória, e o sistema de recompensa, que processa informações relacionadas à satisfação e prazer.
A aceleração da velocidade de reprodução altera o controle executivo e a regulação do foco de atenção, que são função do córtex pré-frontal. Essa região é responsável por funções como tomada de decisões, planejamento, resolução de problemas e regulação de comportamentos e emoções. “O cérebro se acostuma com esse padrão de conteúdos mais rápidos e intensos, enfrentando dificuldades quando a informação não chega na mesma velocidade”, observa a professora Marucci.
Com a aceleração constante, o cérebro perde a habilidade de manter a concentração por períodos mais longos, como em conversas, leituras, estudos ou durante a visualização de um filme. Marucci acrescenta que a memória de curto prazo, ou memória operacional, também é afetada. Essa forma de memória é crucial para registrar eventos enquanto uma atividade está sendo realizada, e sua capacidade é limitada, dificultando o registro de múltiplas informações ao mesmo tempo, conforme explica.
Esse fenômeno não só tem implicações na forma como consumimos conteúdo, mas também nas nossas interações diárias e na capacidade de focar em tarefas simples. Portanto, vale a pena refletir se a praticidade de assistir conteúdos de forma acelerada realmente compensa os potenciais efeitos negativos na nossa saúde mental.

