Demanda em Alta, Mas Infraestrutura Falha
O ABC, região metropolitana de São Paulo, apresenta uma demanda crescente por apartamentos do tipo studio, mas ainda enfrenta desafios significativos para expandir esse mercado. A percepção de profissionais do setor imobiliário é de que a falta de infraestrutura de transporte e a inexistência de políticas públicas que incentivem a construção desse tipo de imóvel são os principais obstáculos. Os apartamentos studio atraem principalmente solteiros, jovens em início de carreira e casais sem filhos, que buscam independência e praticidade.
Os studios diferem ligeiramente dos tradicionais apartamentos de um dormitório: eles integram sala, quarto e cozinha em um único espaço, mantendo o banheiro separado. Na capital paulista, a oferta desse modelo de imóvel tem crescido de maneira acelerada, impulsionada pela localização central e pela facilidade de acesso a serviços como supermercados, bares e estações de Metrô, o que não se repete na região do ABC.
Crescimento em São Paulo e Estagnação no ABC
De acordo com o índice FipeZap, em 2025, o preço por metro quadrado de apartamentos de um dormitório em São Paulo subiu 4,08% para venda, acompanhando a valorização semelhante de imóveis com dois ou mais dormitórios. No segmento de locação, a alta foi ainda mais acentuada, atingindo 8,70%. Entretanto, na região do ABC, os apartamentos de um quarto não apresentam valorização significativa, exceto em São Bernardo, que registrou um crescimento de 5,45% na venda em 2025.
José Julio Diaz Cabricano, presidente da Acigabc (Associação das Construtoras e Imobiliárias do Grande ABC), ressalta que a falta de lançamentos de studios na região é atribuída a dois fatores principais: a ausência de legislação que permita a construção de apartamentos menores de 50m² e a carência de infraestrutura, especialmente no que se refere ao transporte público, que é um critério decisivo para o público-alvo.
Desafios Legais e a Necessidade de Transporte Eficiente
“Não temos como atender a demanda, pois a falta de Metrô limita as opções. Além disso, as regras das prefeituras não permitem a construção de studios devido ao seu tamanho compacto. Em Santo André, por exemplo, só são autorizados apartamentos a partir de 32 m² quando voltados para habitação de interesse social; São Caetano exige medidas mínimas ainda maiores e a permissão para apenas projetos com pelo menos duas vagas de garagem; enquanto em São Bernardo, os apartamentos devem ter mais de 50 m²”, explica Cabricano.
O presidente da Acigabc também menciona que as prefeituras têm se mostrado resistentes em aprovar imóveis de menor metragem, apesar de suas tentativas de flexibilizar a legislação. A conexão do ABC a um sistema de transporte sobre trilhos eficiente é crucial para o crescimento do mercado de studios, como acontece na capital.
Perfil do Consumidor e Qualidade de Vida
Com base em dados do IBGE, um em cada cinco lares brasileiros é ocupado por uma única pessoa, com um aumento de 52% nos últimos 12 anos. Essa realidade reflete não apenas a presença de jovens e pessoas em transição, mas também o significativo número de idosos, que constituem 40% dessa categoria de residências. A demanda por qualidade de vida é uma prioridade tanto para quem vive sozinho quanto para as famílias menores, que preferem residir em locais próximos aos centros urbanos com acesso fácil ao transporte público.
Inovação em Projetos Imobiliários
Vanessa Trentini, arquiteta em São Bernardo, encontrou uma oportunidade ao reformar imóveis antigos para criar apartamentos studio. Ela relata que, em um projeto realizado em Santo André, vinte unidades foram alugadas rapidamente. Os imóveis variam entre 15 e 25 m², pensados para oferecer conforto aos moradores. A proximidade de linhas de transporte coletivo é um diferencial que atrai os interessados.
“Estamos localizados a apenas 50 metros de um ponto de ônibus, em uma avenida bem estruturada, com diversos serviços ao redor”, destaca a arquiteta, que enfatiza a importância do planejamento inteligente para maximizar os espaços e garantir conforto.
Expectativas Futuras e Novas Oportunidades
A demanda por apartamentos studio é tão alta que os empreendedores da área buscam novos imóveis. “Atendemos a pessoas que já tinham um padrão de vida elevado, mas que agora escolheram o studio para morar sozinhas. Temos visto jovens buscando autonomia, pessoas que se separaram e profissionais em transição de carreira. Se tivéssemos 60 unidades, teríamos alugado todas”, afirma Trentini.
Os novos apartamentos são equipados com segurança, internet e áreas comuns, além de contarem com cozinhas completas e espaço multifuncional. Os preços variam entre R$ 1,2 mil e R$ 1,8 mil, sem taxas de condomínio, e os imóveis aceitam animais de estimação.
Apesar do crescente sucesso, a arquiteta concorda com Cabricano sobre a necessidade de investimentos em infraestrutura de transporte. “A presença do Metrô faria uma diferença significativa, e se o ABC tivesse esse tipo de conectividade, o segmento imobiliário certamente já teria avançado muito mais”, conclui. Os empreendedores que Trentini representa estão de olho em áreas centrais do ABC, em busca de novas oportunidades para atender a esse mercado promissor.

