Incidente de Assédio Durante Partida de Futebol
No último sábado, 7 de março, um episódio alarmante ocorreu durante a partida entre Comercial e Nacional-SP, válida pela nona rodada da Série A4 do Campeonato Paulista, véspera do Dia da Mulher. A médica Bianca Francelino, que estava no estádio para prestar assistência ao time visitante, tornou-se alvo de comentários ofensivos e de cunho sexual por parte de torcedores, que a importunaram ao longo do jogo.
Em entrevista à EPTV, afiliada da TV Globo, Bianca compartilhou sua experiência angustiante. Ela relatou ter ouvido gritos como ‘doutora gostosa’ repetidamente durante toda a partida. Os torcedores não se contentaram em apenas gritar, mas também faziam pedidos inapropriados, como ‘vem aqui me examinar’ e ‘estou com uma dor aqui’, insinuando sua parte íntima, além de tentativas de obter seu contato pelo WhatsApp e Instagram. O assédio verbal foi constante, e em um momento, um torcedor sugeriu que, se ela não gostasse das ‘zoeirinhas’, deveria ficar em casa na próxima vez.
O clube Comercial emitiu uma nota repudiando o comportamento dos torcedores e já identificou um dos envolvidos no assédio. A Federação Paulista de Futebol (FPF) também se manifestou, informando que o caso foi encaminhado às autoridades competentes e que medidas rigorosas serão aplicadas aos responsáveis.
Bianca, ao refletir sobre o ocorrido, expressou seu desejo de não discutir o assunto para tentar esquecer a experiência traumática. No entanto, ela sentiu que era seu dever falar sobre o que aconteceu. ‘Nós, como mulheres, não devemos deixar esse tipo de situação nos silenciar. Ninguém deve decidir onde uma mulher deve ou não atuar, isso deve ser uma escolha dela’, enfatizou. Ela ressaltou ainda a necessidade de punição para o agressor e a luta contínua contra a vulnerabilidade que as mulheres enfrentam em diversos ambientes.
Reação do Namorado e Apoio da Arbitragem
O namorado de Bianca, Paulo Galvão, educador físico, estava na arquibancada acompanhando o jogo e presenciou o momento de constrangimento. Ele revelou que, ao tentar confrontar um dos torcedores, acabou sendo ameaçado. ‘Ele estava desrespeitando na frente de todos. Quando fui falar, ele já reagiu de forma agressiva, desafiando-me’, disse. Paulo pediu respeito em relação a Bianca, que é sua parceira.
De acordo com a assessoria da FPF, o protocolo contra situações de intolerância no futebol foi acionado, e a árbitra Ana Caroline D’Eleutério prestou apoio à médica durante a partida. A súmula do jogo documenta que a árbitra foi informada sobre o assédio, o que gerou discussões acaloradas entre os jogadores e a comissão técnica do Nacional com os torcedores do Comercial, que estavam nas proximidades.
Possíveis Consequências para os Torcedores e Clube
O caso trouxe à tona a discussão sobre a responsabilidade dos clubes em eventos esportivos. O presidente da Comissão de Direito Desportivo da OAB de Ribeirão Preto, Vitor Silva Muniz, alertou que o Comercial pode ser responsabilizado pelas ações dos torcedores, enfrentando multas que podem chegar a R$ 100 mil. Além disso, os torcedores identificados podem ser banidos do estádio por até dois anos.
Muniz explicou que o incidente pode se enquadrar no artigo 243 G do Código Brasileiro de Justiça Desportiva, que prevê penalidades tanto para o clube quanto para os torcedores. ‘O clube tem a obrigação de manter uma lista de torcedores proibidos de entrar, facilitando a fiscalização e evitando que situações como essa se repitam’, comentou.
Incidentes de assédio em ambientes esportivos não são novos, mas esse caso específico destaca a necessidade urgente de ações preventivas e punitivas para coibir esse comportamento inaceitável. A sociedade e as instituições precisam se unir para garantir a segurança e o respeito às mulheres, tanto em estádios quanto em qualquer espaço.

