Colt: Um Cão com Missão Especial
Aos 11 meses, Colt é um blue heeler que já chama a atenção pela energia e simpatia, mas sua verdadeira missão vai além: ele está sendo treinado para ajudar crianças com deficiência auditiva no projeto Doutor CãoPaixão, promovido pela ONG CãoPaixão, em Ribeirão Preto, São Paulo. Nascido com surdez congênita, Colt chegou à instituição em 2025 e começou seu adestramento há aproximadamente cinco meses. A expectativa é que, até 2027, ele esteja completamente preparado para atuar como cão terapeuta, oferecendo inclusão, afeto e conexão, especialmente com as crianças que se comunicam por meio do contato visual.
Treinamento Especializado para um Cão Surdo
Mesmo sem a capacidade de ouvir, Colt já aprendeu comandos básicos, como sentar, deitar, dar a pata, rolar e andar junto. O responsável pelo adestramento, Amauri Antônio dos Santos, que possui mais de 30 anos de experiência, utiliza apenas gestos visuais para se comunicar com o cão. “Os exercícios são organizados em sequência, mas o aprendizado é um pouco mais gradual devido à surdez dele. Tudo precisa ser muito visual”, comenta Amauri.
Depois de dominar os comandos iniciais, Colt enfrentará uma nova fase: a aprendizagem de sinais inspirados na Língua Brasileira de Sinais (Libras). Alguns gestos simples, que expressam emoções, já fazem parte do dia a dia do filhote, como o sinal que indica ‘alegria’.
Um Cão Terapeuta com Foco e Propósito
Atualmente, a ONG abriga cerca de 30 cães em treinamento para atividades terapêuticas. Colt é o único surdo do grupo, mas interage normalmente com outros cães, dividindo o canil com um animal ouvinte. As sessões de treinamento acontecem três vezes na semana, com duração média de 20 a 30 minutos. Durante as práticas, Colt já utiliza um colete especial, que funciona como seu “uniforme de trabalho”.
De acordo com Amauri, esse acessório ajuda o cão a entender que é hora de treinar e, futuramente, de realizar visitas terapêuticas. “Quando ele veste a roupinha, sabe que está em horário de trabalho. Isso contribui para o foco e a organização dele”, explica.
Surdez Congênita e a Predisposição da Raça
Colt nasceu com surdez congênita, uma condição hereditária relativamente comum em certas raças, sendo a média de incidência no blue heeler de cerca de 10%. A médica-veterinária Bianca Shimizu explica que a origem do problema geralmente está na orelha interna, que é responsável pela audição e equilíbrio. “A estrutura externa pode estar perfeita, mas a interpretação dos sons pelo sistema nervoso não ocorre”, esclarece.
Além do blue heeler, outras raças como dálmata, bull terrier, dogo argentino e bulldog francês branco apresentam maior predisposição à surdez. Contudo, a condição pode afetar cães de qualquer raça. Para Bianca, a proposta do projeto é especialmente significativa. “Treinar um cão surdo para ajudar crianças surdas é uma iniciativa incrível. Esses animais se conectam muito pelo toque e pelo olhar, criando uma troca extremamente rica”, ressalta.

