A Prisão de Maduro e Suas Implicações
A captura do ditador venezuelano Nicolás Maduro neste sábado (3) marca um novo capítulo nas intervenções americanas na América Latina, sob a presidência de Donald Trump. Embora a operação tenha sido considerada um sucesso, a decisão de Trump de agir e sua declaração de que os Estados Unidos governarão a Venezuela levantam diversas dúvidas sobre o futuro do país vizinho.
Em justificativa para a ação, que deverá ser analisada judicialmente nos EUA, o governo Trump apresentou múltiplas justificativas. O secretário de Estado, Marco Rubio, ressaltou que Maduro é amplamente considerado um governante ilegítimo, uma vez que teria fraudado as eleições presidenciais de 2024. No entanto, Rubio afirmou que o ataque não se tratou de um ato de guerra, evitando assim a necessidade de consulta ao Congresso. “Foi essencialmente uma ação para prender dois fugitivos da Justiça americana”, destacou o secretário de Estado.
O Contexto do Ataque e as Acusações
Maduro e sua esposa, Cilia Flores, foram indiciados em Nova York por crimes como narcoterrorismo e tráfico de drogas, uma estratégia que reforça a retórica dos EUA em relação à guerra às drogas, que tem sido uma justificativa para ataques a embarcações no Caribe. A operação, segundo o governo americano, visava barcos suspeitos de transportar cocaína para os EUA, resultando em mais de 100 mortes em bombardeios ao longo de quatro meses. Contudo, essa justificativa é fragilizada pelo fato de a Venezuela não ser um grande produtor de cocaína; as rotas de tráfico costumam ter como destino portos europeus.
Ainda mais problemático é o suposto envolvimento de Maduro com narcotraficantes, que carece de evidências concretas. O denominado “cartel dos sóis”, mencionado por Trump, não é uma organização reconhecida. Douglas Farah, presidente da IBI Consultants, uma empresa de pesquisa em segurança, comenta: “Se o objetivo fosse realmente combater o tráfico de drogas, a Guarda Costeira dos EUA seria mais eficaz, mas os recursos não foram empregados.” Segundo ele, a verdadeira intenção de Trump parece ser o acesso ao petróleo venezuelano.
A Questão do Petróleo e a Intervenção Americana
A Venezuela possui as maiores reservas de petróleo do mundo, superando a Arábia Saudita, e Trump já afirmou que Caracas teria “roubado” petróleo que pertence aos EUA. Esse argumento, no entanto, remete a investimentos realizados por petroleiras americanas no país. Trump sugere que as empresas americanas devem assumir o controle da indústria petrolífera venezuelana, mas especialistas alertam que essa tarefa seria extremamente complexa.
“Seriam necessários bilhões de dólares e uma década para tornar as instalações operacionais novamente. Além disso, o petróleo venezuelano é de difícil processamento, e o mercado global atualmente não necessita desse petróleo”, ressalta Farah.
Para obter controle sobre o petróleo, Trump mencionou a possibilidade de uma ocupação militar direta, semelhante à intervenção no Iraque, que é amplamente vista como um fracasso. No entanto, Rubio também sinalizou que os EUA estão dispostos a trabalhar com líderes venezuelanos que permaneçam no poder, desde que tomem as “decisões certas”. Isso sugere uma tolerância à presença chavista, desde que submissa a Washington, descartando assim a possibilidade de instalação de líderes opositores mais alinhados aos interesses americanos.
Reações na Venezuela e O Futuro Incerto
Por sua vez, Delcy Rodríguez, vice de Maduro, não demonstrou abertura para cooperar com os EUA. Em um pronunciamento, exigiu a libertação imediata de Maduro e afirmou que a Venezuela “jamais será colônia”.
A natureza da ação que resultou na captura de Maduro também levanta questões sobre o papel das Forças Armadas venezuelanas. Os EUA afirmam que nenhum soldado americano foi ferido durante a operação, que incluiu bombardeios em bases militares, resultando em pelo menos 40 mortos entre os venezuelanos. As circunstâncias em torno da captura de Maduro ainda são incertas e geram especulações sobre possíveis negociações secretas que poderiam ter permitido a saída do líder venezuelano.
Segundo Carolina da Silva Pedroso, professora de Relações Internacionais da Unifesp, “é possível que Delcy Rodríguez estivesse negociando uma transição política com os EUA”. A vice-presidente é uma figura poderosa, e há indícios que sugerem uma possível traição contra Maduro, o que complica ainda mais o cenário político no país.

