Um Mergulho na Cultura Brasileira
Conversar com Roberto Mendes é adentrar um universo onde a música se transforma em reflexão, a memória serve como argumento, e a poesia se torna uma lente para entender o mundo. Esta não é uma entrevista convencional; é uma troca rica e fluida, onde Mendes se expressa como toca: em espirais, repleto de imagens e camadas. Reconhecido como músico e compositor, ele se apresenta também como um pesquisador das tradições que absorveu, não por meio de livros, mas pela convivência direta com mestres anônimos da cultura do Recôncavo.
Autor de diversos estudos sobre o tema, Mendes é um profundo conhecedor da chula e do samba de roda, tendo moldado sua linguagem na companhia de tocadores de viola machete — um instrumento pequeno e essencial ao samba chula. Suas influências vêm das vivências e práticas que foram passadas de geração em geração, e sua obra, portanto, é imersa na experiência e na escuta do outro.
Ao dialogar, ele evita categorizar a cultura em conceitos rígidos, preferindo metáforas que desafiam a lógica. Mendes descreve a cultura como “um rio sem cais”, e o povo como “um corpo nu”, com a ideia de que o samba existiu antes mesmo de receber esse nome. É a partir desse lugar — entre tradição e invenção — que ele faz provocações incisivas, como a que intitula esta entrevista. Para ele, compreender o Carnaval, o samba e a cultura brasileira implica escutar não apenas a música, mas também as vozes e modos de vida que precedem o espetáculo.
O Samba Antes do Samba
Ao ser questionado sobre sua visão do Carnaval, que celebra os 110 anos do samba, Mendes responde: “Meu trabalho é o samba antes do samba”. Ele enfatiza a importância da chula e suas variantes, como o xarel e a chula amarrada. Para Mendes, a chula é um canto de trabalho que se entrelaça com a musicalidade brasileira. “A viola machete, ao abordar essa tradição, é um instrumento de percussão ferida, assim como o violão, formando uma união perfeita entre o batuque e a chula”, explica.
Mendes discorre sobre como a arte, muitas vezes, se distancia da cultura. “A arte é uma desgraça para a cultura. É a forma que se torna produto, enquanto a cultura flui livremente”, reflete, convidando a audiência a repensar o papel do Carnaval na sociedade contemporânea.
A Relação do Samba e da Chula
O músico traça uma analogia entre o samba de roda e a chula, comparando-o à relação entre o afoxé e o candomblé. O samba de roda, segundo ele, é a manifestação profana da chula, surgindo após a reza, e representando um espaço de encontro e celebração comunitária. Mendes lembra que é no samba de roda que se revelam a alegria e a dor do povo, em um ritual que mantém a conexão com suas raízes.
Ele também compartilha sua experiência no Carnaval, revelando que participa há 26 anos do bloco Alvorada. “É a única coisa que me traz de volta a Santa Amaro, me conecta com a tradição”, afirma, expressando um profundo carinho pela sua terra natal. Mendes destaca que essa conexão é essencial para sua identidade e busca artística.
Reflexões sobre a Origem do Samba
Ao abordar a controvérsia sobre a origem do samba, Mendes reafirma sua crença de que o gênero musical nasceu no Recôncavo da Bahia. Ele menciona a trajetória de Tia Ciata, figura icônica do samba, e como sua história se entrelaça com a do próprio samba, afirmando que “o que se come e se fala molda o comportamento de um povo”. Para Mendes, o samba é muito mais do que uma forma de arte; é a própria expressão cultural da resistência e identidade afro-brasileira.
“O samba já existia antes do samba. No Recôncavo, onde tudo começou”, ele canta, reafirmando sua crença de que essa rica cultura é uma herança viva que deve ser respeitada e transmitida às futuras gerações. Mendes conclui que, apesar dos desafios, a força da tradição resiste e renova-se.
Uma Herança Cultural Duradoura
Com mais de uma década de carreira e álbuns autorais, Roberto Mendes continua a trilhar o caminho da música e da pesquisa. Seu compromisso em preservar e celebrar a cultura do Recôncavo é evidente em cada nota que toca e em cada palavra que pronuncia. Através de sua arte, ele mantém viva a memória de seus ancestrais e nos lembra da importância de resgatar as raízes culturais que moldam nossa identidade.
Como um verdadeiro guardião da tradição, Mendes nos desafia a olhar além do espetáculo, a abraçar a riqueza das vivências e a celebrar o samba em sua totalidade.

