Um Encontro com a Poesia
Quem tem receio de poesia? Gregório Duvivier definitivamente não se inclui nesse grupo. Em seu novo espetáculo, “O Céu da Língua”, ele se empenha em convencer o público sobre as belezas e nuances desse gênero literário. Usando seu talento cômico, Duvivier revela que, a cada dia, estamos imersos em poesia, tornando a experiência leve e divertida.
Após estrear em Portugal no início de 2024, o espetáculo chegou ao Brasil em fevereiro do mesmo ano e já acumulou mais de 140 mil espectadores em uma turnê que incluiu várias sessões extras. A combinação entre humor e poesia tem atraído elogios, e o talento do comediante é inegável. Duvivier, que tem formação em Letras pela PUC do Rio de Janeiro e já publicou três livros sobre o tema, acredita que a poesia é uma fonte de humor involuntário. ‘Escrevi uma peça que pode ajudar alguém a entender melhor o que os poetas desejam transmitir. Para isso, precisamos trocar os óculos de leitura’, afirma.
Direção e Cenografia Impressionantes
A direção do espetáculo é assinada por Luciana Paes, que já colaborou com Duvivier em outros projetos, como o improviso no espetáculo ‘Portátil’. Com uma cenografia criada por Dina Salem Levy, a apresentação é ainda enriquecida pela atuação do instrumentista Pedro Aune, responsável pela trilha sonora no contrabaixo. A designer Theodora Duvivier, irmã do comediante, manipula as projeções que aparecem ao fundo do palco, tornando a experiência ainda mais visual e envolvente. ‘Acredito que Gregório possui ideias que merecem ser compartilhadas com o mundo. Essa crença me motiva, independentemente de rótulos’, comenta Luciana, que é cofundadora da respeitada Cia. Hiato e agora faz sua estreia como diretora teatral.
Diferente de um recital convencional, “O Céu da Língua” não se limita a declamações de clássicos como Castro Alves ou Fernando Pessoa. A dramaturgia de Duvivier, embora cômica, carrega uma poética intrínseca. Luciana descreve o espetáculo como uma ‘stand-up comedy pegadinha’, onde o humor e a reflexão se entrelaçam. ‘O público embarca nessa proposta ao lado de um Gregório que é tanto simpático e engraçado quanto intelectual, atento às suas próprias reflexões’, completa a diretora.
Um Estudo Divertido da Língua Portuguesa
A origem da fascinação de Duvivier pela língua portuguesa remonta à sua infância. O artista se diverte brincando com códigos que apenas algumas pessoas conseguem decifrar, como os que existem entre pais e filhos ou casais apaixonados. O espetáculo também aborda as reformas ortográficas que eliminaram letras e acentos, trazendo à tona reflexões engraçadas sobre palavras atualmente esquecidas e os novos significados que termos como ‘irado’ e ‘brutal’ adquiriram entre os jovens. Ele ainda provoca risadas ao relembrar palavras que geram reações curiosas, como ‘afta’ e ‘seborreia’.
Duvivier enfatiza que a língua é um elo que nos conecta, embora raramente prestemos atenção a isso. Frases do cotidiano, como ‘batata da perna’ e ‘céu da boca’, revelam que utilizamos poesia sem perceber. Para reforçar que a poesia é acessível, ele destaca a importância dos letristas da música brasileira. Canções como “Chão de Estrelas” e “Livros”, de Orestes Barbosa e Caetano Veloso, respectivamente, são citadas no espetáculo, celebrando a capacidade dos compositores de levar a poesia às massas, tal como sonhou Oswald de Andrade.
Uma Homenagem à Língua Portuguesa
Ao longo do espetáculo, Gregório Duvivier demonstra que a poesia é tudo menos hermética. Ele presta homenagem a Portugal, o país que nos legou a língua portuguesa, e menciona poetas como Fernando Pessoa e Eugênio de Andrade. A ideia que deu origem a “O Céu da Língua” surgiu do espetáculo “Um Português e Um Brasileiro Entram no Bar”, onde Duvivier e o humorista português Ricardo Araújo Pereira improvisavam sobre a rica linguagem que ambos compartilham.
Em suma, “O Céu da Língua” é uma celebração da linguagem e da poesia, cheia de humor e insights. Essa obra se propõe a criar uma experiência onde a plateia não apenas se divirta, mas também reflita sobre a beleza escondida nas palavras que usamos diariamente.

