Retorno da Competitividade para o Agronegócio
Representantes de diferentes segmentos do agronegócio brasileiro comemoraram a recente decisão da Suprema Corte dos Estados Unidos, que declarou ilegal a política tarifária imposta pelo então presidente Donald Trump. A análise inicial sugere que essa medida pode restituir a competitividade aos produtos brasileiros, embora permaneçam incertezas sobre a resposta que o governo americano adotará em relação à decisão.
Com um placar de seis votos a três, a maioria dos ministros da Corte dos EUA estabeleceu que o presidente não tem autorização legal para impor tarifas sem um respaldo claro do Congresso. Essa decisão revoga tarifas que estavam em vigor desde abril de 2025 e pode resultar na devolução de mais de US$ 175 bilhões arrecadados pelo governo americano durante esse período. Logo após o veredicto, Trump anunciou uma tarifa global de 10% sobre todos os produtos, válida por 150 dias.
No setor cafeeiro, o café solúvel é o único que ainda enfrenta uma tarifa de 50%. No ano anterior, as exportações para o mercado americano sofreram uma queda de 28,2%, totalizando 558,7 mil sacas. De acordo com a Associação Brasileira da Indústria de Café Solúvel (Abics), durante o período em que o tarifaço esteve em vigor, a redução foi de 40%.
No início de 2026, os embarques de café solúvel para os EUA recuaram 13,7%, para 41,2 mil sacas, ao passo que as vendas de café verde minguaram 46,7% em janeiro deste ano, totalizando 385,8 mil sacas. Segundo o Conselho dos Exportadores de Café do Brasil (Cecafé), entre agosto e novembro, durante a vigência das tarifas, as exportações de café verde para os EUA despencaram em 55%. Em 2025, os americanos importaram 5,38 milhões de sacas, uma diminuição de 33,9% em comparação a 2024.
Expectativas e Reações dos Setores
Eduardo Carvalhaes, do Escritório Carvalhaes, de Santos (SP), enfatiza que é crucial observar como a decisão será implementada e como o governo Trump reagirá. Contudo, ele acredita que a revogação do tarifaço restabelece a competitividade do café solúvel brasileiro. “Nosso solúvel estava perdendo espaço rapidamente para concorrentes que não enfrentavam taxas ou que lidavam com tarifas menores. Esta é uma boa notícia que pode permitir ao solúvel brasileiro recuperar seu espaço em um mercado tradicional”, avalia.
A Associação Brasileira da Indústria de Café (Abic) também se manifestou favoravelmente à decisão. Em nota, a entidade ressaltou que o veredicto “reforça a segurança jurídica e o respeito às competências nas relações comerciais internacionais”. Pavel Cardoso, presidente da Abic, afirmou que “em um setor global e altamente integrado, previsibilidade e regras claras são fundamentais para garantir estabilidade e investimentos.”
Renato Azevedo, presidente da Associação Brasileira dos Exportadores de Mel (Abemel), destacou a decisão da Suprema Corte como extremamente positiva, afirmando que isso coloca o mel brasileiro em uma posição de igualdade com seus concorrentes. “A diminuição das tarifas reestabelece a competitividade do mel brasileiro, e acreditamos que as negociações de compra serão retomadas gradualmente, com clientes americanos voltando a assinar contratos”, disse ele.
Impacto nas Relações Comerciais
A Abrafrutas, que representa o setor de frutas, também avaliou de forma positiva a decisão da Suprema Corte, considerando-a um avanço nas relações comerciais entre Brasil e Estados Unidos. O presidente da associação afirmou que este ambiente mais favorável pode melhorar o acesso da fruticultura brasileira aos EUA, especialmente para produtos como uvas, melões e melancias, que foram prejudicados pelas tarifas.
Francisco Medeiros, presidente da Associação Brasileira de Piscicultura (PeixeBr), comemorou a notícia, especialmente para a tilápia brasileira, cuja maioria das vendas é direcionada aos EUA. Ele destacou que a derrubada das tarifas é um sinal positivo, embora ajustes governamentais e alfandegários ainda estejam por vir. “Nossos objetivos incluem terminar 2026 como o segundo maior exportador de tilápia para os EUA, um plano que foi frustrado com as tarifas”, afirmou.
Juliano Kubitza, diretor-geral da Fider Pescados, expressou sua expectativa quanto às futuras ações e o impacto que a redução das tarifas teria nos negócios. “Se as tarifas realmente forem diminuídas, isso será um alívio significativo para nossa produção de tilápia. Desde a implementação das tarifas, temos enfrentado prejuízos e reduzido nossos volumes em mais de 50%”, explicou.
Para a Associação Brasileira das Indústrias de Pescados (Abipesca), a decisão pode representar uma mudança significativa para o setor em 2026. O presidente da associação, Eduardo Lobo, mencionou a possibilidade de retomar postos de trabalho perdidos e duplicar as exportações de tilápia em comparação a 2025, uma meta ambiciosa que ele acredita ser alcançável.
As usinas de cana-de-açúcar do Nordeste também veem a decisão como uma oportunidade de reestabelecer as relações comerciais entre Brasil e EUA. Renato Cunha, presidente do Sindaçúcar-Pernambuco, destacou que é hora de reconstruir laços após os desafios enfrentados. “Esperamos que a reunião entre os presidentes Lula e Trump em março ofereça soluções para as exportações de açúcar”, concluiu.

