Desafios Estruturais na Saúde Brasileira
O cenário da saúde pública brasileira para 2026 se apresenta repleto de desafios prementes, especialmente em um ano eleitoral marcado por intensas polarizações. De acordo com especialistas, esse contexto pode dificultar a implementação de decisões estruturais fundamentais, que frequentemente são ofuscadas por promessas de curto prazo e disputas ideológicas. Um levantamento da pesquisa Datafolha indica que cerca de 20% da população considera a saúde como o maior problema do Brasil, o que ressalta a urgência de uma abordagem mais pragmática e menos retórica em relação ao Sistema Único de Saúde (SUS).
Para Gonzalo Vecina Neto, médico e professor da Faculdade de Saúde Pública da USP, o financiamento da saúde deve permanecer estável, mas sem avanços significativos. Ele observa que as regras constitucionais, que garantem a destinação de 15% da receita corrente líquida da União para a saúde, continuam válidas. “Não vai piorar, mas também não vai melhorar. Vai ser a mesma coisa”, enfatiza.
Orçamento e Recursos Limitados
No último dia 19, o Congresso Nacional aprovou o relatório final do Orçamento de 2026, que prevê um total de R$ 6,5 trilhões em despesas. A destinação para ações e serviços públicos de saúde foi fixada em R$ 254,9 bilhões, superando em R$ 7,4 bilhões o mínimo exigido pela Constituição. Nesse ambiente de recursos limitados, a discussão sobre a organização do sistema de saúde se torna cada vez mais relevante.
Vecina destaca que o principal problema do SUS está relacionado à regulação do acesso a consultas especializadas e exames. Embora iniciativas como o programa Mais Especialistas, uma das principais bandeiras do governo atual, ofereçam alívio imediato, ele argumenta que são soluções emergenciais. “É como apagar incêndio. Ajuda, mas não resolve”, critica.
Propostas e Avanços Necessários
Na visão do ex-ministro da Saúde, José Gomes Temporão, há alguns avanços a serem reconhecidos, especialmente no modelo de remuneração dos serviços de saúde. “Estamos passando do pagamento por procedimento para modalidades mais focadas em resultados”, observa. No entanto, ele adverte que o programa ainda é insuficiente para enfrentar todos os gargalos do sistema, especialmente no que diz respeito ao acesso e ao tempo de espera.
Temporão também critica o impacto das emendas parlamentares no orçamento da saúde, considerando que esse fenômeno dificulta o planejamento e a definição de prioridades nacionais. Com quase 32% das emendas ao Orçamento de 2026 direcionadas ao setor saúde, totalizando R$ 21,4 bilhões, ele ressalta que isso pode comprometer a governabilidade e a execução de políticas públicas.
Expectativas para as Campanhas Eleitorais
A professora e pesquisadora Ligia Bahia, da UFRJ, afirma que a saúde deve continuar sendo um tema central nas campanhas eleitorais, com propostas mais realistas em comparação aos pleitos anteriores. “Antes, eram promessas inatingíveis, como garantir 6% do PIB para a saúde. Agora, as propostas são mais ajustadas à realidade”, analisa.
Ligia defende que o reconhecimento das limitações do sistema de saúde é fundamental para promover avanços significativos. “Um sistema que deixa pessoas morrerem não pode ser o normativo. Precisamos nos comprometer com um sistema que realmente garanta a vida das pessoas”, disse.
Prepare-se para Emergências Sanitárias
Outro ponto crítico destacado por especialistas é a necessidade de preparar o país para futuras emergências sanitárias. Temporão ressalta a importância de criar um organismo nacional robusto de inteligência epidemiológica para coordenar ações de vigilância. “Essa área é extremamente crítica, considerando novas pandemias e os impactos das mudanças climáticas na saúde”, afirma.
Thais Junqueira, superintendente da Umane, alerta para a desinformação em saúde, que tende a se intensificar em anos eleitorais. “A vacinação é sempre um tema sensível em períodos eleitorais, e o Brasil ainda enfrenta resistências alimentadas por fake news”, aponta.
Conciliando Prioridades em Meio a Desafios
Apesar da diversidade de desafios, incluindo câncer, filas de espera, financiamento e vigilância, há um consenso entre os especialistas de que 2026 não deve ser um ano perdido. “Não podemos esperar grandes reformas estruturais, mas é necessário definir prioridades realistas e estabelecer objetivos de curto prazo”, conclui Thais. A mensagem é clara: a saúde pública requer um olhar atento e soluções práticas para garantir um futuro melhor para todos.

