Arte que deixa marcas no tempo
O que permanece após o término de uma obra de arte? Essa reflexão guia a curadora Ana Carolina Ralston na organização de Vestígios: cartografias de gestos, exposição coletiva que reúne 33 artistas residentes e um convidado no Espaço República, localizado no centro de São Paulo. A mostra abre ao público em 30 de setembro, após vernissage marcada para o dia 24.
Mais do que um inventário da produção artística do edifício, a exposição busca revelar os diferentes momentos e processos que cada pesquisa atravessa. Para montar a seleção da segunda edição de Vestígios, Ralston mergulhou nos portfólios e nos processos individuais, identificando conexões entre linguagens diversas como pintura, desenho, fotografia, escultura, vídeo e instalação.
O olhar atento ao processo criativo
“A escolha das obras parte de uma leitura cuidadosa da produção atual de cada artista, porque toda criação é sobre processo”, explica a curadora. Ana Carolina tem uma trajetória entre arte, cultura e comunicação, com experiência em exposições de artistas reconhecidos, como Louise Bourgeois e Tracey Emin, no Museu Fama, em Itu (SP). Em Vestígios, seu foco está na produção cotidiana que acontece nos ateliês distribuídos pelos seis andares do Espaço República.
Para Ralston, os vestígios da criação estão não só nas obras, mas também na convivência entre os artistas, nas relações e transformações que surgem quando diferentes pesquisas compartilham o mesmo espaço. A exposição mostra trabalhos em movimento, com marcas do passado e indicações do que está por vir.
Diálogos entre pesquisas diversas
O artista visual Jaques Faing, que apresenta uma obra da série Olho cósmico Psi (2026), destaca a importância da curadoria para fomentar diálogos entre as pesquisas individuais. “O olhar externo ajuda a construir aproximações e novos sentidos para o trabalho, permitindo uma troca rica e uma transformação mútua entre os artistas”, comenta.
A diversidade de linguagens é um traço forte da mostra. Igor Romana, residente paulista, retoma seus estudos visuais em 2021, aprofundando pintura e desenho no ateliê de José Paulo Latorre. Sua pesquisa parte da figura negra e investiga formas de visibilidade de corpos e subjetividades sob a ótica racial. Em Vestígios, ele apresenta Green Goddess Calla Lily (2026), da série Flores no meu atelier, obra que representa uma mudança de direção em sua produção recente.
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“É como uma mudança energética, intensa como a chegada da primavera depois do inverno rotineiro das minhas criações”, define Romana, que celebra o espaço para diálogo com novos interlocutores no coletivo.
Convivência que fortalece a cena artística
Maria do Carmo Verdi, também residente, ressalta como a diversidade de técnicas e poéticas reunidas na exposição permite acompanhar as investigações e reflexões dos artistas. “Essa convivência entre diferentes linguagens fortalece os laços entre nós e cria conexões com o público”, afirma, apresentando obras da série Chuvisco, sua mais recente criação.
Desde 2023, o Espaço República vem transformando um edifício tradicional da avenida São Luís, no centro de São Paulo, em um polo de convivência e produção artística. Construído em 1957 para abrigar a Companhia Real de Navegação Aérea, o prédio de 21 andares hoje conta com 51 ateliês, galeria, sala de cursos e programa de residência artística, ocupando 1.985 m² em seis andares.
Um espaço que aproxima arte e cotidiano
O projeto do Espaço República nasceu em meio ao esvaziamento dos conjuntos comerciais durante a pandemia de Covid-19, quando o artista e empreendedor Philip Haji-Touma transformou o prédio em um espaço aberto 24 horas para artistas, oferecendo apoio em curadoria, fotografia e montagem de mostras. A galeria funciona de quinta a sábado, com visitas guiadas para aproximar o público do processo criativo.
Até agora, o espaço já realizou 18 exposições e recebeu cerca de 6 mil visitantes em mostras e ativações. A curadoria da exposição busca captar não apenas obras isoladas, mas os diálogos que surgem entre as pesquisas que dividem o Espaço República.
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O bairro da República e sua cena artística em destaque
O bairro da República foi listado entre os 40 mais interessantes pela revista britânica Time Out, ocupando a 25ª posição. A publicação destaca o Espaço República como um polo artístico com ateliês e espaços de exposição que atraem visitantes interessados na cena cultural local.
Para Philip Haji-Touma, “Vestígios” torna visível uma produção que geralmente fica restrita aos ateliês. “Não existe outro espaço que une tantas pontas importantes da arte com essa organicidade. Mostrar o Espaço República como um território vivo de criação é nosso objetivo, e a curadoria da Ana traz a maturidade necessária para esse momento”, comenta o artista plástico.
Um registro provisório de uma cena em constante transformação
Na sua segunda edição, Vestígios: cartografias de gestos documenta um instante da cena artística do centro de São Paulo. A mostra é um retrato temporário, pois os artistas seguem criando, os processos se desdobram e novas obras ocuparão o espaço nas próximas exposições.
A primeira edição, em setembro de 2025, reuniu trabalhos de 19 artistas residentes do Espaço República. O nome escolhido para a exposição carrega esse sentido: um vestígio é algo que permanece do passado, mas também evidencia que a criação continua em movimento.
Serviço
Vestígios: cartografias de gestos
Vernissage: 24 de setembro, das 17h às 21h (para convidados e jornalistas)
Visitação: de 25 de setembro a 10 de outubro, de quarta a sábado, das 12h às 18h
Entrada gratuita
Ateliês abertos: 26 e 31 de setembro, das 12h às 18h (3º, 5º, 7º, 13º e 17º andares)
Local: Espaço República — avenida São Luís, 86, República, São Paulo (SP)

