A Importância das Narrativas Docentes
O livro “Escrevivências da Educação Física Cultural – Volume 5” não se apresenta como uma obra neutra, longe disso. Esta publicação se insere de maneira clara nas disputas que permeiam o ambiente escolar. Essas disputas envolvem questões sobre quem tem a voz, quais saberes são legitimados e quais corpos são reconhecidos, além de quais narrativas ganham destaque no debate educacional. Ao adotar essa postura, o livro reafirma a docência como um espaço de produção de conhecimento, reconhecendo que o currículo não é apenas técnico ou consensual, mas sim constantemente influenciado por relações de poder. É nesse contexto tumultuado que a Educação Física se reinventa.
Ao coletar escrevivências de professores e professoras de escolas públicas que participam de atividades promovidas pelo Grupo de Pesquisas em Educação Física Escolar da Faculdade de Educação da USP, no âmbito de um projeto de pesquisa financiado pelo CNPq, a obra confronta a lógica que historicamente separa teoria e prática, universidade e escola, aqueles que pensam e aqueles que executam. Nesta perspectiva, a escrita não é um mero apêndice do ato pedagógico, mas uma parte constitutiva da própria prática docente. Escrever a aula envolve também reconfigurá-la, deslocá-la e recontextualizá-la no currículo. Dessa forma, a escrita docente emerge como uma forma de inovação e uma recusa ao silenciamento que frequentemente atinge os educadores, especialmente em um campo que, por anos, foi reduzido a uma mera técnica, focada no desempenho e na disciplina dos corpos.
Reivindicando o Direito de Narrar
Inspirada na noção de escrevivência proposta por Conceição Evaristo, esta obra reivindica o direito de narrar experiências pessoais como um ato político. Narrar, nesse contexto, não se limita a descrever fatos, mas busca disputar sentidos e promover mudanças significativas. Assim, as aulas de Educação Física não são espaços neutros, mas sim territórios de confronto de discursos que envolvem gênero, raça, deficiência, juventude, saúde, normalidade e diferença. Cada relato de experiência presente neste volume reinscreve a Educação Física dentro desse campo de tensões, recriando-a a partir das vivências.
As narrativas coletadas não proporcionam respostas prontas ou modelos universais. Pelo contrário, elas expõem incertezas, conflitos e desafios que fazem parte do cotidiano escolar. Essa recusa a se conformar a um modelo rígido é, em si mesma, uma declaração de posição: ao invés de replicar fórmulas estabelecidas, os textos revelam processos de criação curricular que são situados e desenvolvidos em diálogo com contextos específicos, estudantes reais e condições concretas de trabalho. Essa crítica é uma resposta direta às políticas educacionais que insistem em padronizar currículos, homogeneizar experiências e transformar a docência em uma mera execução de diretrizes externas, políticas que buscam, paradoxalmente, obstruir a reinvenção da escola e da Educação Física.
Reinventando a Educação Física
A Educação Física que se destaca nessas páginas não gira em torno da simples transmissão de uma cultura corporal fixa, mas sim da problematização das representações que circulam sobre práticas corporais e sobre quem as realiza. Os corpos apresentados nos relatos – negros, periféricos, dissidentes, com deficiência, infantis, juvenis, populares – não são meros objetos de intervenção, mas sujeitos de enunciação. Ao centralizá-los na experiência curricular, os autores e autoras deslocam a Educação Física de seu papel historicamente disciplinador, transformando-a em um espaço de criatividade, produção cultural, confronto e invenção de novas possibilidades de existência.
Este volume critica abertamente pedagogias que naturalizam a exclusão sob a justificativa de neutralidade ou meritocracia. As escrevivências revelam que a inclusão não é uma promessa vazia, mas um trabalho pedagógico diário, repleto de escuta, negociação, confronto e desestabilização de normas. Portanto, reinventar a Educação Física não se resume a adaptar corpos a padrões preestabelecidos, mas a questionar os próprios critérios que definem quem é considerado apto, normal ou legítimo.
Desafiando a Hierarquia Epistêmica
Ao tornar públicas essas narrativas pessoais, o livro também desafia a hierarquia do conhecimento que, historicamente, permitiu apenas a alguns sujeitos a voz no debate escolar. As escrevivências negam a tutela acadêmica e reivindicam um espaço legítimo no diálogo educacional. Não se trata de desconsiderar a teoria, mas sim de reconstruí-la em colaboração com a experiência, sem subordinação e silenciamento.
Dessa maneira, o quinto volume reafirma que a Educação Física cultural não é apenas uma abordagem ou um método, mas um campo de lutas. Um campo em constante disputa por significados, reconhecimento e justiça curricular. A leitura deste livro convida o leitor a posicionar-se frente às desigualdades, às violências simbólicas e aos esforços de neutralização que permeiam a escola e a prática docente.
“Escrevivências da Educação Física Cultural – Volume 5” não foi concebido para apaziguar, mas para provocar, deslocar e reinventar. E é nesse ato político que reside sua verdadeira potência.

