Desafios na Produção Agrícola devido à Escassez de Diesel
A escassez de óleo diesel no Brasil, agravada pela disparada dos preços internacionais do petróleo em meio a tensões geopolíticas, como o conflito entre EUA e Irã, já começa a impactar significativamente a colheita e o plantio. As dificuldades foram constatadas em várias regiões produtoras, do Sul ao Centro-Oeste, levantando preocupações sobre a capacidade de escoamento da produção agrícola e o funcionamento dos maquinários nas fazendas.
De acordo com Manoel Ventura, a possível isenção do ICMS sobre o diesel importado poderia levar a uma economia de aproximadamente R$ 1,6 bilhão por mês. Entretanto, a realidade é que as importações de diesel caíram cerca de 60%, conforme informações da ANP, e as entidades do setor alertam para um risco iminente de desabastecimento.
Dentro do governo, há uma avaliação de que os problemas atuais têm potencial para refletir nos preços dos alimentos, especialmente em relação ao milho, um insumo crucial na ração animal, o que pode inflacionar os preços das carnes. Embora as medidas iniciais tenham se concentrado na redução de tributos sobre combustíveis e no aumento da fiscalização dos reajustes, a proposta de uma linha de crédito emergencial para o setor agrícola está ganhando força.
Dificuldades semelhantes estão sendo relatadas por rizicultores no Rio Grande do Sul, que respondem por 70% do abastecimento nacional de arroz. Os produtores de soja do Centro-Oeste, que estão na reta final da colheita de uma supersafra e prestes a iniciar o plantio da segunda safra de milho, também enfrentam desafios. Adicionalmente, as usinas de açúcar e etanol de São Paulo, prestes a começar a safra 2026/2027, também estão sentindo os efeitos da escassez.
Consequências Econômicas da Escassez de Combustível
O diesel é fundamental tanto para o transporte da produção agrícola quanto para o funcionamento das máquinas utilizadas na colheita e no plantio. Recentemente, a ANP reportou que, apesar das restrições ainda serem consideradas pontuais, os preços do diesel já subiram 19,4% em relação ao período anterior ao início do conflito, o que tende a comprimir ainda mais as margens de lucro dos produtores, que já enfrentam uma situação financeira delicada.
Segundo José Vicente Caixeta, diretor da cAIxeta Inteligência Logística, o aumento nos preços dos combustíveis está gerando um efeito cascata nas tarifas de frete, que já subiram entre 10% e 12% desde o início da guerra. “O impacto não ocorre apenas nos produtos sendo colhidos, mas também nos que estão sendo plantados, uma vez que as máquinas também dependem do diesel”, comentou.
James Thorp, presidente da Fecombustíveis, que representa os postos de combustível, destacou que a incerteza quanto aos preços e à disponibilidade do diesel aumenta a demanda, especialmente no setor agropecuário. “As distribuidoras atendem os pedidos de acordo com a média de consumo, mas pedidos extras não estão sendo atendidos”, afirmou.
No Sul, a Federação das Associações de Municípios do Rio Grande do Sul (Famurs) atualizou recentemente um levantamento que mostra que 165 dos 345 municípios que responderam ao questionário relataram problemas com a escassez de diesel para veículos e máquinas oficiais, um aumento em relação aos 142 registrados na semana anterior.
Preocupações com a Colheita de Arroz e Outras Produções
A zona de alerta se concentra principalmente na colheita do arroz, que ocorre de fevereiro a abril, com pico em março. A Fedearroz manifestou que o aumento no preço do diesel acontece em um momento em que o arroz, por sua vez, está com preços baixos, o que pode potencialmente gerar repercussões no mercado. “Qualquer impacto na produção pode afetar o preço final do arroz”, afirmou a entidade.
Além disso, a produção de azeitonas e azeite também está sendo afetada. Rafael Goelzer, produtor do azeite Estância das Oliveiras, já observou um aumento superior a R$ 1,00 no litro do diesel durante o período crítico da colheita. “Embora não tenhamos enfrentado problemas de abastecimento até agora, a previsão é que a situação se agrave nas próximas semanas”, disse Goelzer.
No Sudeste, a Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de Minas Gerais (Faemg) expressou preocupação com a falta de diesel em plena colheita de grãos e cana-de-açúcar. Eduardo Valdivia, presidente do Sindicato do Comércio Varejista de Combustíveis de Campinas, alertou que usinas de cana em Ribeirão Preto já estão enfrentando atrasos na colheita devido à dificuldade no abastecimento.
Na região Centro-Oeste, o escoamento da soja recém-colhida e o plantio da segunda safra de milho também dependem do fornecimento de diesel. Com relação a Mato Grosso do Sul, Edson Lazaroto, diretor-executivo do Sinpetro, informou que há um movimento intenso de antecipação de compras e reforço nos estoques do combustível, em um cenário que é ainda mais complicado para os produtores rurais, que já enfrentam custos altos, encarecimento do crédito e margens de lucro reduzidas.
Enquanto isso, o governo se mantém atento à situação, com o Ministério da Fazenda já anunciando a desoneração tributária sobre o diesel e um subsídio voltado para produtores e importadores. A Secretaria Nacional do Consumidor (Senacon) do Ministério da Justiça, por sua vez, iniciará um plantão para ajudar na fiscalização de preços abusivos de combustíveis, a partir de amanhã.

