Os Efeitos da Força Militar nas Relações Internacionais
A recente ofensiva dos Estados Unidos contra o Irã, que ocorre menos de dois meses após o sequestro do presidente venezuelano por forças norte-americanas, marca uma nova configuração na política internacional. Segundo Renato Janine Ribeiro, essa sequência de eventos evidencia a fragilidade dos valores éticos e do direito no cenário global, especialmente diante da ação conjunta de EUA e Israel. “A força bruta, de certa forma, retornou com intensidade. O que se destaca nessa situação é a dificuldade em reconhecer as limitações da força militar. Como bem disse Napoleão Bonaparte, é possível realizar muitas ações com armas, mas um trono não se sustenta em baionetas. A força pode dominar, causar mortes e sofrimento, mas não consegue estabelecer um poder duradouro”, afirma Ribeiro.
Ele ressalta ainda que, mesmo regimes autoritários requerem algum nível de consentimento para se manterem, pois nenhuma ditadura sobrevive sem o apoio de uma parte da população. Essa dinâmica é o que mantém a teocracia islâmica no Irã, uma vez que, mesmo após a morte do aiatolá Ruhollah Khomeini, o regime dos aiatolas tende a se perpetuar. “Não é apenas a força militar que garante a sobrevivência desse regime. Há uma estrutura e articulação muito bem definidas. Desmantelar o poder, por si só, não transforma a realidade”, acrescenta.
A Diplomacia como Ferramenta Indispensável
O colunista ainda adverte que a utilização da força militar pode levar a equívocos significativos, fazendo com que as nações acreditem que não necessitam da diplomacia, da negociação e, em última instância, da política. “A política é uma constante nas relações humanas. Israel enfrenta grandes desafios para negociar com os países árabes, o que resulta em um estado de guerra persistente. Quero deixar claro que minha crítica não se destina ao Estado de Israel, mas sim ao governo atual e a administrações anteriores. O Estado de Israel, por sua essência, não irá desaparecer, mas é crucial destacar que táticas perigosas, como as implementadas por Putin na Ucrânia e por Trump na Venezuela e Irã, podem trazer ganhos momentâneos, como a eliminação de Khomeini, mas não constroem um futuro sólido”, explica Ribeiro.
Ele enfatiza que a ausência de uma articulação robusta é um dos principais obstáculos para a construção de relações internacionais justas e saudáveis entre países soberanos. Além disso, muitos desses países, como Irã e Venezuela, enfrentam dificuldades internas que tornam a implementação de uma verdadeira democracia ainda mais complexa. Para avançar em direção à democracia, é imprescindível substituir a força bruta por um compromisso genuíno com a política, o respeito ao direito e a ética nas relações internacionais.

