Necessidade de uma Abin mais forte
A geopolítica contemporânea está imersa em complexidades, com intensas disputas por hegemonia econômica, petróleo e minerais essenciais. Nesse contexto, um país com a relevância territorial, populacional e econômica do Brasil deveria ter um serviço de inteligência e contrainteligência robusto. Mas será que a Agência Brasileira de Inteligência, a Abin, está preparada para enfrentar tais desafios? Um colaborador presidencial, que preferiu não se identificar, optou por não comentar a situação, evitando desentendimentos com colegas do serviço público. No entanto, figuras proeminentes do lulismo não hesitaram em criticar a atual realidade da agência.
José Genoino, ex-presidente do PT, expressou sua preocupação afirmando: “O Brasil não possui uma inteligência de Estado adequada.” Segundo ele, a falta de informações cruciais para enfrentar a crise provocada pelo trumpismo evidencia a fragilidade da Abin, que, em sua visão, se encontra “no limbo”. Genoino argumentou que o programa de governo de Lula para a reeleição deve incluir a atividade de inteligência como um componente estratégico essencial.
O que dizem os especialistas?
Ricardo Berzoini, outro ex-comandante do PT, também se manifestou sobre o tema. Para ele, “não adianta esconder essa questão nas eleições”. A crescente relevância da inteligência artificial e a importância de recursos como petróleo e terras raras demandam um sistema de inteligência de alto nível. Tanto Genoino quanto Berzoini participaram de um debate em Brasília, realizado na última quinta-feira, 9, sobre “Inteligência de Estado na democracia”. O evento, promovido pela Intelis, entidade de oficiais de inteligência da Abin, e pela Universidade Popular (Unipop), contou ainda com a presença de José Dirceu, um outro ex-presidente do partido.
Curiosamente, embora alguns parlamentares tenham sido convidados, a ausência deles foi notável. Para Acilino Ribeiro, reitor da Unipop e um dos responsáveis por uma proposta de reforma da Abin, essa falta de comparecimento é sintomática de um grande obstáculo à modernização do sistema nacional de inteligência. Ribeiro destaca que “a CIA e o Mossad atuam no Congresso para que a Abin não receba emendas parlamentares”, referindo-se ao serviço de inteligência dos Estados Unidos e ao de Israel, respectivamente.
Recursos escassos e desafios estruturais
Entre 2019 e 2026, o Congresso brasileiro destinou apenas 14 milhões de reais em emendas para a Abin, conforme informações do Siga Brasil, um portal mantido pelo Senado. No mesmo período, o total das emendas aumentou de 13 bilhões para 50 bilhões de reais. Esse cenário revela que, apesar do órgão ter um orçamento de 933 milhões para este ano, a quantia destinada à “informação e inteligência” é apenas 81 milhões, menos de 10% do total. Para comparação, a CIA possui um orçamento anual de aproximadamente 14 bilhões de dólares.
Berzoini também fez menção ao fato de que até mesmo a agência de inteligência da Argentina, um país com PIB e população inferior ao Brasil, possui recursos mais substanciais do que a Abin. A escassez de orçamento, no entanto, não é o único desafio enfrentado pela agência e pelo sistema de inteligência brasileiro, que inclui setores especializados nas Forças Armadas e nas polícias.
Desorientação e falta de direcionamento
Um oficial de inteligência, cuja identidade será mantida em sigilo, comentou que a Abin está desorientada, em parte devido à falta de diretrizes claras por parte do governo. “Não vamos participar do jogo geopolítico mundial sem uma inteligência civil”, afirmou. Outro funcionário, que também preferiu não ser identificado, expressou a sensação de desamparo na Casa Civil: “Ficamos sem pai”.
Após os eventos de vandalismo de 8 de janeiro de 2023 em Brasília, o presidente Lula decidiu retirar a Abin da estrutura do GSI, um órgão militar que estava sob comando de um general, e transferi-la para a Casa Civil. José Dirceu, por sua vez, considera que a extinção do GSI, realizada durante o governo Dilma Rousseff, foi uma das decisões mais acertadas da então presidenta. Ele argumenta que os militares interferem nas atividades de inteligência e política externa de forma autônoma, sem alinhamento com os interesses do Brasil.
Cultura institucional e desafios históricos
Os participantes do debate concordaram que, de forma geral, a mentalidade dos militares ainda é influenciada pela ideia de que sua missão é proteger o país contra um “inimigo interno”. Essa perspectiva, que remonta à ditadura militar de 1964 a 1985, resultou em repressão contra movimentos sociais e forças populares. Genoino reforçou que essa “cultura” também permeia setores da Abin, observando que a atividade de inteligência no Brasil é marcada por uma visão direcionada ao inimigo interno. Segundo ele, o autoritarismo em várias instituições nacionais é um reflexo da longa história escravocrata e colonial do país.

