Humilhação e Falta de Sigilo em Atendimento de Saúde
Um paciente alega ter sido exposto a uma situação constrangedora em uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA) de Ribeirão Preto, no interior de São Paulo. O incidente ocorreu no dia 9 de março, quando seu teste de HIV positivo foi anunciado em voz alta, levando a uma sensação de humilhação. O caso, que foi amplamente noticiado, despertou discussões acerca do respeito à privacidade e à ética médica.
O atendimento aconteceu na UPA Oeste, localizada no bairro Sumarezinho, durante a aplicação do protocolo de Profilaxia Pós-Exposição (PEP) após o paciente ter se envolvido em uma relação sexual com suspeita de transmissão do vírus. A Secretaria Municipal de Saúde se manifestou, confirmando que uma funcionária foi afastada enquanto o caso é investigado.
A PEP é um tratamento de urgência disponibilizado pelo Sistema Único de Saúde (SUS) que visa prevenir a infecção pelo HIV e outras doenças sexualmente transmissíveis. Para ser eficaz, a profilaxia deve ser iniciada em até 72 horas após o potencial risco de infecção e é oferecida gratuitamente em serviços de emergência. Porém, o que deveria ser um atendimento discreto e respeitoso acabou se transformando em um episódio de violação de intimidade.
A advogada do paciente, Julia Gobi Turin, declarou em nota que os profissionais de saúde envolvidos não apenas falharam em manter o sigilo médico, mas também cometeram infrações que podem levar à representação nos conselhos de classe pertinentes.
“O sigilo médico não é uma opção, mas sim uma obrigação inegociável”, enfatizou a advogada, destacando a gravidade da situação e a necessidade de que as medidas de acolhimento e respeito sejam rigidamente seguidas em atendimentos de saúde.
Detalhes do Atendimento Controverso
O boletim de ocorrência feito pelo paciente revela que, apesar de ter sido classificado como atendimento prioritário devido à pressão alta, ele enfrentou longas horas de espera antes de ser atendido, o que aumentou sua angústia. Durante o atendimento, após a realização dos exames, a médica anunciou em voz alta que o teste tinha resultado positivo, criando um ambiente desconfortável e constrangedor para o paciente, que se sentiu exposto diante de outros presentes.
Além disso, uma enfermeira também confirmou os resultados do teste em público, o que fere os princípios de respeito à privacidade do paciente. Posteriormente, ao procurar a Polícia Civil, o paciente relatou dificuldades para obter o próprio exame, o que aumentou sua frustração e indignação.
A advogada, além de buscar a responsabilização dos envolvidos, destaca que a resolução 2.437/2025 do Conselho Federal de Medicina assegura que o diagnóstico deve ser conduzido com humanização e total sigilo. “Não há justificativa para a falta de respeito à intimidade do paciente”, afirmou.
Legislação em Proteção à Privacidade do Paciente
O caso levanta questões importantes sobre a legislação que protege a privacidade dos pacientes. A Lei nº 14.289/2022 proíbe a divulgação de condições de saúde de pacientes com HIV, hepatites crônicas, tuberculose e hanseníase por profissionais de saúde. Além disso, a Lei nº 12.984/2014 tipifica como crime a revelação da condição sorológica de portadores do HIV, com pena de um a quatro anos de prisão e multa, caso essa divulgação se dê com o intuito de ofender a dignidade da pessoa.
A Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) também é relevante nesse contexto, destacando que a sorologia é um dado pessoal sensível, cuja divulgação sem consentimento pode levar a ações judiciais. O Código de Ética Médica reforça que o sigilo é uma obrigação fundamental na relação entre médico e paciente.
Responsabilidade e Acompanhamento do Caso
A Secretaria Municipal da Saúde, além de confirmar o afastamento da funcionária, ressaltou que a Fundação Hospital Santa Lydia, responsável pelas UPAs da cidade, irá instaurar um processo administrativo para apurar minuciosamente os fatos. “Casos como este são tratados com seriedade, especialmente por envolverem questões de sigilo e respeito à privacidade do paciente”, ressaltou a secretaria, evidenciando a importância de protocolos que garantam um atendimento digno e respeitoso.
Enquanto a investigação está em andamento, o caso serve como um alerta para a necessidade de melhorar a capacitação dos profissionais de saúde sobre a importância do respeito à privacidade e à dignidade dos pacientes, especialmente em situações sensíveis como a confirmação de diagnósticos de saúde.

