Reflexões sobre Acúmulo e a Natureza nas Obras de Torrezan
O Centro Cultural UFMG abre suas portas para a exposição individual ‘Monturo e outros tantos’, do artista visual Gustavo Torrezan, com curadoria de Ana Paula Lopes. A mostra, que ocorrerá no dia 6 de março de 2026, às 19 horas, traz à tona discussões relevantes sobre as relações sociais no mundo atual, focando nos processos de acúmulo — de poder, dinheiro, conhecimento e produtividade — e sua influência nas interações entre cultura e natureza. O público poderá visitar as obras até 12 de abril de 2026. A entrada é gratuita e a classificação é livre.
‘Monturo e outros tantos’ não se limita a ser uma simples exibição de arte, mas sim um convite à reflexão sobre os modos de produção e exploração da natureza que definem a sociedade contemporânea. O termo ‘monturo’, que denomina um amontoado de itens como plantas, animais, máquinas e ferramentas, está ligado à lógica da agroindústria e à produção agrícola industrial.
A exposição se debruça sobre questões urgentes: por que acumulamos tanto? Ao invés de trazer soluções, essa dinâmica tem contribuído para crises globais, como as mudanças climáticas, pandemias e desigualdades crescentes. O fenômeno é paradoxal: vivemos em uma era de inovações tecnológicas sem precedentes, enquanto nos aproximamos de um colapso ambiental e social iminente.
Diálogo com o Antropoceno e a Crítica da Agroindústria
Reunindo uma diversidade de formatos como pinturas, desenhos, gravuras, objetos e instalações, o trabalho de Torrezan reflete sobre o Antropoceno, conceito que marca a era em que a intervenção humana impacta drasticamente o planeta. A exposição evidencia a relação desbalanceada entre os sistemas naturais e a vida humana, ligada ao acúmulo e à exploração desenfreada.
Entre as obras em destaque, encontra-se a série ‘Modernização conservadora’ (2023–2025), que apresenta paisagens aparentemente intocadas que, ao receberem gravações a laser, revelam monoculturas, rebanhos e maquinário agrícola. Essa abordagem aponta para as transformações drásticas trazidas pela agroindústria. Outra série notável é ‘Quando a natureza passa a ser cultura’ (2024), onde a sobreposição de imagens de vegetais e marcas de agrotóxicos proporciona um embate visual sobre diferentes políticas de vida e morte.
A exposição também inclui a escultura ‘Antropoceno (BBBP)’ (2025), confeccionada com materiais inusitados como papel de Bíblia, bosta de boi, chumbo e petróleo. A gravura ‘Futuro’ (2024), feita por crianças não alfabetizadas, apresenta a palavra ‘futuro’ de maneira invertida e espelhada, enquanto a instalação ‘Mesh (superfície e imagem)’ (2025) investiga as interações entre o real e o virtual, utilizando reflexos e luzes para aludir às dinâmicas de acúmulo e exploração na internet.
Por fim, a instalação ‘Monturo’ propõe uma reflexão profunda sobre as relações de poder, tecnologia e natureza, desafiando o público a reconsiderar os caminhos que estamos trilhando como sociedade.
Sobre Gustavo Torrezan e Ana Paula Lopes
Gustavo Torrezan, nascido em 1984 em Piracicaba-SP, é artista, pesquisador e educador, atualmente residindo entre Belo Horizonte (MG) e Piracicaba (SP). Professor de Artes Visuais na UFMG, Torrezan possui obras em importantes coleções e museus brasileiros, incluindo o MASP e a Pinacoteca de São Paulo. Ele já participou de diversas exposições coletivas e individuais, destacando-se por suas críticas à relação do ser humano com o meio ambiente.
A curadora Ana Paula Lopes, nascida em 1983 em São Caetano do Sul-SP, é uma especialista em História da Arte e atua na Pinacoteca de São Paulo. Com uma vasta experiência em curadoria, sua pesquisa foca na geopolítica da curadoria e na história das exposições na América Latina, contribuindo para um entendimento mais profundo das intersecções entre arte e sociedade.

