Trânsito em Ribeirão Preto: Um Desafio Contínuo
Em 2025, Ribeirão Preto encerrou o ano com 86 mortes no trânsito, conforme informações do Infosiga.SP, vinculado ao Detran. Isso significa uma vida perdida a cada quatro dias. Apesar de um número inferior ao de 2024, quando foram registradas 108 fatalidades, a cidade continua acima da média dos últimos dez anos e revela a continuidade da violência viária, mesmo em um ano que mostra um recuo estatístico.
Além disso, o município contabilizou 2.038 acidentes, o que resulta em mais de cinco ocorrências diárias. A análise dos dados aponta que homens na faixa etária de 18 a 24 anos representam o grupo mais vulnerável, com 101 registros. Desde 2015, Ribeirão Preto tem alternado entre quedas e aumentos nos índices de óbitos — 84 mortes em 2015, 71 em 2019, 83 em 2021 e o pico recente em 2024. Essa oscilação indica um cenário de instabilidade, que persiste apesar de alguns avanços pontuais. Atualmente, a frota da cidade conta com 541.749 veículos, um crescimento que exacerba as pressões sobre o sistema viário e complica as tarefas de fiscalização e prevenção.
Comparação Regional: Ribeirão Preto em Perspectiva
Quando analisamos o desempenho de Ribeirão Preto em comparação com outras cidades de porte similar, observamos resultados variados. Sorocaba, por exemplo, viu as mortes caírem de 132 em 2024 para 115 em 2025, ainda assim acima dos índices de Ribeirão. Por outro lado, São Bernardo do Campo experimentou um movimento contrário, com um aumento de 92 para 127 óbitos, mesmo com uma frota de veículos maior. Em São José dos Campos, os números foram mais baixos e estáveis, com 77 mortes em 2025, enquanto Osasco registrou um aumento de 18 óbitos, passando de 55 para 73. No panorama estadual, São Paulo fechou o ano com 6.109 mortes no trânsito, o que representa uma diminuição de 0,3% em comparação ao ano anterior, com motociclistas sendo os mais afetados pelas fatalidades.
Desafios Estruturais e Comportamentais
Anderson Manzoli, engenheiro e especialista em transportes, destaca que a falta de uma redução consistente nos índices de acidentes aponta para falhas nos três pilares que sustentam o trânsito: veículos, infraestrutura e comportamento humano. “Embora os veículos tenham progredido ao longo dos anos, a infraestrutura e, principalmente, o comportamento dos motoristas, não avançaram na mesma medida”, ressalta. Manzoli argumenta que, apesar de algumas iniciativas pontuais, o planejamento urbano e o transporte coletivo ainda são insuficientes para diminuir a dependência de veículos particulares. “Fatores como o custo, o tempo de deslocamento e a logística não são favoráveis, o que força muitas pessoas a utilizarem automóveis ou motocicletas”, acrescenta.
Ainda segundo o especialista, o fator humano se revela como o aspecto mais relevante nos acidentes fatais. “O trânsito reflete a convivência social. Quanto mais agressiva for a interação entre as pessoas, mais isso se evidenciará nas ruas”, observa. Manzoli critica a escassez de investimentos em ações que abordem essa questão de forma estrutural, que vão além das respostas imediatas a picos de acidentes ou obras viárias que afetam a circulação.
Educação no Trânsito: Um Caminho Necessário
O perfil das vítimas traz um dado preocupante: a predominância de jovens, especialmente homens entre 18 e 24 anos, que, segundo Manzoli, são mais propensos a se expor ao risco. “Esse grupo muitas vezes não possui uma compreensão clara sobre a conexão entre causas e consequências. Eles costumam arriscar mais, ultrapassando limites e subestimando os efeitos de suas ações”, explica. O Código de Trânsito Brasileiro, embora sólido em teoria, falha na sua aplicação prática. “A preparação para a habilitação é rigorosa, mas, após esse processo, a fiscalização diminui. O que realmente importa é como o motorista aplica o que aprendeu”, alerta.
Manzoli enfatiza que uma redução efetiva das mortes no trânsito requer uma abordagem que vá além da fiscalização punitiva. A educação para o trânsito, segundo ele, deve ser encarada como uma política de cidadania desde a infância. “É preciso formar motoristas conscientes, não apenas pessoas que saibam dirigir. Dirigir é um ato que envolve a compreensão de que o espaço público é compartilhado”, destaca. Essa mudança cultural deve incluir práticas como direção defensiva, respeito ao próximo e abandono da mentalidade de confronto. “É fundamental evitar a retaliação, respeitar motociclistas, ciclistas e pedestres, e seguir as sinalizações. Tudo isso demonstra cuidado com o espaço público e com as pessoas ao redor”, conclui.

