A Política Externa dos EUA sob Trump
Cerca de um mês antes de invadir a Venezuela com o intuito de capturar o presidente Nicolás Maduro, o governo de Donald Trump ressuscitou a Doutrina Monroe, uma estratégia de segurança nacional do século XIX. Essa doutrina declarou o Hemisfério Ocidental, ou seja, as Américas, como uma esfera de influência dos Estados Unidos. Historicamente, essa abordagem levou a intervenções, golpes de Estado e pressões para derrubar regimes que não agradavam a Washington. No entanto, Trump se destacou ao realizar um ataque explícito a um país da região, deixando claro que seu foco não estava em promover a democracia ou a segurança coletiva, mas sim em garantir o controle sobre o petróleo.
Após a invasão, surgem incertezas. Os EUA ainda trabalham em um plano para a Venezuela pós-Maduro, conforme noticiado. Em uma entrevista ao GLOBO, o professor de Relações Internacionais no Ibmec, Gustavo Macedo, ressaltou que, embora seja prematuro afirmar que já temos uma Doutrina Trump, algumas características dessa nova abordagem são evidentes: o desrespeito às normas internacionais e a lógica caótica que permeia suas decisões, pegando aliados de surpresa.
Comparações com Doutrinas Anteriores
Ao analisar as ações de Trump, Macedo aponta semelhanças com doutrinas históricas dos EUA, como a Doutrina Monroe e a Doutrina Bush, que surgiu após os ataques de 11 de setembro. Ele argumenta que, embora não se possa afirmar que já existe uma Doutrina Trump, as características dessa política são marcadas por instabilidade e decisões imprevisíveis, que desconsideram as normas tradicionais do direito internacional, especialmente em relação ao Estatuto de Roma e à Carta da ONU.
“A Carta da ONU estabelece que apenas o Conselho de Segurança pode autorizar uma ação militar. Essa prerrogativa foi desrespeitada durante a invasão”, comenta Macedo. O especialista destaca que a ação dos EUA na Venezuela rompe com um princípio de não intervenção, que foi defensor do Brasil por figuras como Ruy Barbosa, enfatizando a autodeterminação dos povos latino-americanos.
O Papel do Petróleo e a Narrativa de Trump
Em sua coletiva de sábado, após a invasão, Trump se concentrou em discutir o petróleo, uma questão crucial, já que a Venezuela possui as maiores reservas do mundo. Em sua fala, ficou evidente que sua intenção é assegurar o controle americano sobre a Venezuela até que um regime favorável seja estabelecido. Embora inicialmente a narrativa tenha girado em torno do combate ao narcotráfico, muitos especialistas argumentam que essa justificativa não se sustenta, uma vez que países como Colômbia e México apresentam desafios maiores nesse aspecto.
“Trump se expõe excessivamente ao discutir seus interesses na Venezuela. Enquanto outros presidentes preferem uma abordagem mais diplomática, ele não hesita em deixar claro que seu foco está no petróleo”, observa Macedo.
Incertezas Futuras e Implicações Geopolíticas
O futuro político da Venezuela permanece envolto em incertezas. A vice-presidente assumiu o cargo, mas questões sobre a legitimidade do novo governo e a possibilidade de resistência da oposição permanecem. O especialista alerta que a situação pode evoluir para um ciclo de instabilidade e até mesmo guerra civil, especialmente com a fragmentação do poder.
“Temos que considerar como será criado um novo pacto de governança. A interveniência americana levou à captura de um líder político e a submissão a um tribunal nos EUA, o que levanta questões sobre a legitimidade desse novo governo”, analisa. Além disso, a comunidade internacional pode não reconhecer a legitimidade de um governo imposto pelos EUA, especialmente com a resistência de potências como China e Rússia, que têm interesses na região.
Perspectivas de China e Rússia
Embora as reações da China e da Rússia ao ataque tenham sido de condenação, Macedo sugere que essas potências estão observando a situação com cautela, buscando entender como seus interesses econômicos podem ser afetados. “Enquanto os EUA jogam pôquer, China e Rússia jogam xadrez. Elas estão pensando em movimentos a longo prazo”, afirma. As consequências da invasão americana podem reverberar em outras áreas geopolíticas, como a Ucrânia e Taiwan, onde a retórica da dominação americana pode ser usada em favor de seus próprios interesses.

