A Direção de Petra Costa Recebe Reconhecimento pela Abordagem da Democracia Brasileira
Em uma conversa exclusiva com o GLOBO, a renomada diretora americana Laura Poitras aproveitou o lançamento de seu novo documentário, “Seymour Hersh: em busca da verdade”, na Netflix, para fazer um elogio especial a uma de suas concorrentes pelo Oscar de melhor documentário. A partir desta sexta-feira (26), o público poderá conferir a obra que traz à luz questões relevantes da ética e do poder.
“Tenho muito orgulho da comunidade de documentaristas, da qual faço parte, e preciso destacar, dentro dela, o trabalho da minha colega Petra Costa, que, com ‘Democracia em vertigem’ e ‘Apocalipse nos trópicos’, aborda questões centrais da democracia, especialmente a impunidade, a partir da realidade brasileira. Ela é uma diretora genial”, afirmou Poitras, em um momento que reflete a união e o reconhecimento entre profissionais da área.
Poitras, que ganhou o Oscar de melhor documentário em 2015 com o aclamado “Cidadãoquatro”, que investiga as revelações de Edward Snowden sobre a vigilância da Agência de Segurança Nacional dos EUA, é uma figura respeitada no cenário cinematográfico. Recentemente, ela foi agraciada com o Leão de Ouro no Festival de Veneza pelo seu documentário “Toda beleza e carnificina”, que discute o ativismo político da fotógrafa Nan Goldin e critica a indústria farmacêutica, que teve um papel crucial na crise dos opioides nos Estados Unidos.
O novo trabalho de Poitras, “Seymour Hersh: em busca da verdade”, explora a biografia de um dos jornalistas mais influentes dos Estados Unidos, conhecido por expor crimes de guerra significativos cometidos pelas forças armadas americanas. A obra investiga o massacre de My Lai em 1968, onde civis, incluindo crianças, foram brutalmente assassinados, e as torturas em Abu Ghraib após a invasão do Iraque, revelando um ciclo de abuso de poder e impunidade que perdura há décadas.
Durante a entrevista, Poitras analisou como as instituições lidam com a justiça nas duas maiores democracias da América. Ela classificou como um “bom sinal” a recente condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro, destacando a importância da responsabilização de líderes políticos. “Isso jamais aconteceu nos EUA, e não só com Donald Trump. Dick Cheney normalizou a tortura e não sofreu consequências, assim como Richard Nixon, que renunciou e foi perdoado”, enfatizou Poitras.
No entanto, a cineasta também levantou preocupações sobre as ações de encobrimento e impunidade que ainda persistem, citando o assassinato de mais de cem pessoas em uma operação policial no Rio de Janeiro no mês passado como um exemplo alarmante.
Ambos os documentários, “Seymour Hersh: em busca da verdade” e “Apocalipse nos trópicos” de Petra Costa, estão entre os 15 pré-indicados ao Oscar, conforme anunciado pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood. Além disso, o Brasil se destacou em outras categorias, com “O agente secreto” de Kleber Mendonça Filho recebendo pré-indicações para melhor filme internacional e melhor elenco. O paulista Adolpho Veloso foi incluído na lista de melhores diretores de fotografia por “Sonhos de trem”, e “Amarela” de André Hayato Saito também foi selecionado na categoria de curtas live-action.

