Reflexões sobre a Destruição de Símbolos
O filósofo alemão Friedrich Nietzsche tinha uma abordagem peculiar para a filosofia, que ele mesmo descrevia como “fazer filosofia às marteladas”. Essa expressão levanta uma questão intrigante: nossa história tem sido construída com a mesma contundência? Para Nietzsche, essa filosofia do martelo era uma forma de questionar as instituições e promessas que nós mesmos criamos, as quais, em última instância, limitam nossas ações e conquistas. A destruição, nesse contexto, torna-se um ato de afirmação da vida.
Recentemente, o Brasil tem visto um aumento na discussão sobre como nossa história recente é moldada. O advento da espetacularização da política trouxe à tona imagens performáticas que, muitas vezes, carecem de caráter educativo. A situação se complica quando observamos eventos que, ao invés de promoverem diálogos construtivos, acabam por manipular a opinião pública.
Um exemplo claro dessa dinâmica ocorreu em Poços de Caldas, no sul de Minas Gerais, onde a Câmara de Vereadores decidiu extinguir os passeios de charrete nas áreas urbanas centrais. A medida foi formalizada por meio de um decreto municipal, e as razões apresentadas incluíam o cumprimento do código de trânsito e, especialmente, a proteção dos animais.
Não há como negar que as charretes, puxadas por equinos em meio ao tráfego intenso de veículos nas ruas, eram fonte de preocupação. O calor escaldante do asfalto e o barulho constante das avenidas tornavam essa situação ainda mais alarmante para o bem-estar dos animais. Contudo, o que realmente chamou a atenção foi a celebração em torno do fim dessa prática turística.
No ato de celebração, o prefeito, acompanhado de secretários e um grupo de ativistas da causa animal, reuniu-se para destruir o cocho onde os animais bebiam água. Munidos de marretas, eles deram início à demolição de um monumento que, segundo eles, simbolizava um passado de opressão. Os antigos charretistas, por sua vez, receberão indenizações, e os novos passeios passarão a ser realizados com veículos motorizados.
Esse incidente local nos remete a uma série de eventos, tanto nacionais quanto internacionais, que envolvem a derrubada de símbolos associados à violência. No Brasil, um caso emblemático foi a destruição da estátua do bandeirante Borba Gato, em Santo Amaro, São Paulo, que foi incendiada em 2021 por ativistas liderados por Paulo Galo. Apesar da ação, a estátua permanece em pé, e seus autores enfrentaram consequências legais, com Galo sendo cobrado pela prefeitura por danos.
Se pensarmos na possibilidade de uma ampla destruição de monumentos que representam uma história de violência contra negros e indígenas, podemos imaginar que o desfecho de muitos desses atos poderia ter sido diferente. A nível global, temos visto várias derrubadas de estátuas que representam figuras ligadas ao racismo e colonialismo, como Edward Colston, em Inglaterra, Cristovão Colombo na Colômbia, e Robert Baden-Powell, em Portugal.
Atualmente, as reações a esses atos de contestação são extremamente variadas. Embora o cuidado com os animais seja um ponto importante, há uma clara seletividade nas atitudes. No evento em Poços de Caldas, a destruição do cocho foi celebrada como um ato de justiça, enquanto outras manifestações de destruição, especialmente aquelas relacionadas a ícones de opressão, são frequentemente tratadas com desprezo e severidade.
O caso da morte do cachorro Orelha em Florianópolis gerou uma onda de indignação, mas essa mesma comoção não se observa em relação a bebês e crianças em situação de vulnerabilidade, principalmente se negras e indígenas. Esse contraste revela um engajamento desigual nas nossas mobilizações sociais.
Infelizmente, enquanto escrevo, recebo notícias trágicas, como a morte da médica negra Andréa Marins Dias, em um confronto com a polícia no Rio de Janeiro. Que tipo de memória e honra podemos esperar, se sequer conseguimos um reconhecimento de suas contribuições com uma lei que carregue seu nome?
A questão da derrubada de estátuas e monumentos é antiga e parte das disputas históricas. Entretanto, os atos em Poços de Caldas, que se apresentaram como ações educativas, carecem de um compromisso genuíno com a crítica e a solidariedade em relação a outras violências sociais.
Uma alternativa, que já foi explorada por países como Angola, Bélgica e Indonésia, seria a conservação desses símbolos em museus, permitindo um espaço para reflexão crítica sobre os erros de nossa história. Isso incluiria não apenas a remoção de homenagens públicas a figuras nefastas, mas também a reavaliação do nome de ruas, escolas e outras instituições que perpetuam essas memórias.
Somente assim, poderemos transitar de encenações sensacionalistas para uma conscientização crítica que realmente valorize a vida e a dignidade humana.
Por fim, cabe ressaltar que um dia após a escrita deste texto, a prefeitura de Poços de Caldas decidiu reconstruir o cocho, ressaltando como a dinâmica das redes sociais e da mídia pode limitar a repercussão de ações de reparação.
Cabe lembrar que a discussão em torno de símbolos e sua interpretação reflete as tensões e contradições presentes em nossa sociedade, que ainda busca um equilíbrio entre as memórias de dor e as reivindicações por um futuro mais justo.

