O Que Faz um Esporte Virar Sensação?
No Brasil, a diversidade esportiva é vasta, com modalidades como boxe, ginástica, tênis e skate ganhando notoriedade. Mas, o que determina o sucesso ou o esquecimento de um esporte? O tiro com arco, por exemplo, é uma prática com raízes milenares, que embora esteja presente nas Olimpíadas desde 1972, ainda não conquistou o público brasileiro da mesma forma que outras modalidades. O desafio para essas práticas é se destacar em um cenário de forte concorrência, onde a atenção do público frequentemente se volta para as competições de futebol e eventos de grande visibilidade.
A cada nova edição das Olimpíadas, vemos o impacto que um atleta carismático pode ter na popularização de um esporte. A ginasta Rebeca Andrade, por exemplo, se tornou um nome amplamente reconhecido, superando figuras de destaque de outras áreas, como a política e a música. Dados do Google mostram que a popularidade da ginástica artística disparou, com buscas em alta sobre suas performances, mostrando que a conexão emocional entre o atleta e o público é um fator crucial para o aumento de adeptos.
A Estrutura como Pilar da Popularização
Graziela Yaci, uma atleta de tiro com arco que conquistou seu espaço no cenário internacional, ressalta que para a popularização de um esporte, a estrutura e o investimento são fundamentais. A falta de políticas públicas robustas e projetos que incentivem a prática esportiva desde a base impede que novos talentos surjam. Ela mesma começou sua trajetória em um torneio indígena antes de se tornar a primeira mulher indígena a representar o Brasil em competições internacionais, destacando a importância de iniciativas que apoiem o desenvolvimento do esporte em comunidades carentes.
A realidade de outros esportes, como a natação, também reflete essa necessidade de maior visibilidade e incentivo. Gabrielzinho, o nadador paralímpico, enfatiza que a mídia e a participação em eventos locais são essenciais para o crescimento da modalidade. Ele acredita que, ao tornar a natação mais visível, mais jovens se sentirão motivados a entrar nas piscinas e a se dedicar ao esporte. A exposição da natação nas mídias tradicionais pode transformar a percepção pública, garantindo que novos talentos sejam reconhecidos e apoiados.
Futebol: A Monocultura que Prevalece
O futebol, por sua vez, continua sendo a paixão nacional, com um espaço quase monopolizado nas atenções. O pesquisador Celso Unzelte destaca que a cultura esportiva no Brasil sempre foi marcada por esta preferência, o que reduz a visibilidade de outras modalidades. As pesquisas do Google confirmam que o futebol é o único esporte que mantém um interesse constante, independentemente do calendário olímpico ou de outras competições. Outros esportes, como o skate e o surfe, têm seu pico de popularidade durante eventos específicos, mas sua presença no cotidiano é efêmera.
A falta de continuidade e investimento em modalidades que não são o futebol resulta em um ciclo vicioso: menos cobertura midiática, menos interesse do público e, consequentemente, menos investimento. Diogo Silva, ex-atleta olímpico, ressalta que a evolução digital trouxe novos meios de transmitir eventos esportivos, mas que a diferença entre as plataformas de alcance é gigantesca. A TV aberta ainda é a forma mais eficaz de alcançar o grande público, enquanto transmissões digitais não conseguem captar a mesma audiência.
Desigualdade e Oportunidades no Esporte
Além das questões estruturais e de visibilidade, a desigualdade social também se reflete no mundo esportivo. O Brasil, apesar de seus sucessos nas últimas Paralimpíadas, ainda enfrenta desafios na equiparação de oportunidades entre modalidades olímpicas e paralímpicas, além de um tratamento desigual na cobertura midiática. A atleta Bruna Alexandre e a lutadora Aline Silva destacam a necessidade de reconhecimento e apoio às atletas mulheres e às pessoas com deficiência, que ainda enfrentam barreiras significativas para seu desenvolvimento e reconhecimento no cenário esportivo.
Odilon José Roble, pesquisador da Unicamp, argumenta que o esporte no Brasil reproduz as desigualdades sociais, dificultando o acesso de jovens de classes baixas e mulheres ao alto rendimento. A falta de políticas que unam esporte e educação perpetua um ciclo de descaso que impede o desenvolvimento de novos talentos e a inclusão social por meio do esporte.
Construindo um Futuro Inclusivo
A transformação do esporte no Brasil depende de um esforço conjunto para ampliar a oferta de modalidades, garantir estrutura e incentivar a formação de talentos desde a base. Iniciativas como as de Flávio Canto, que promove projetos de base, mostram que o investimento em jovens talentos pode gerar não só atletas de alto rendimento, mas cidadãos conscientes e preparados para enfrentar os desafios da vida. A construção de uma cultura esportiva sólida e inclusiva é essencial para que o Brasil possa aproveitar todo o seu potencial esportivo.

