Um Diagnóstico Marcante e a Busca por Informação
Rafael Bolacha, um ator e dançarino de Ribeirão Preto (SP), recebeu o diagnóstico de HIV aos 25 anos, enquanto se preparava para a primeira parada da Disney no Brasil, no Rio de Janeiro (RJ). O ano era 2009 e a descoberta do vírus trouxe um silêncio inquietante, uma realidade que muitos pacientes ainda enfrentam. Para lidar com o medo e o preconceito, Rafael criou um blog anônimo, onde começou a registrar suas emoções e experiências pessoais.
Dezesseis anos após o diagnóstico, o que começou como um diário virtual evoluiu para um livro, curtas-metragens, espetáculos de dança e palestras voltadas à conscientização sobre o HIV. “Se o preconceito é uma doença, a informação é a cura. Sempre digo: calma, respira e se informe. Ninguém precisa enfrentar isso sozinho”, ressalta Rafael.
O Impacto Profundo do Diagnóstico
O diagnóstico de Rafael chegou no auge de sua carreira, quando ele enfrentava uma rotina intensa de ensaios. Durante esse período, ele notou o surgimento de uma diarreia persistente, que o levou a procurar um médico. “Na terceira semana, já tinha emagrecido cinco quilos e percebi que algo não estava certo. Foi durante os exames que fiz o teste de HIV”, relembra.
O resultado, que levava cerca de um mês para sair, trouxe à mente de Rafael referências de morte e sofrimento associadas à epidemia, que marcaram as décadas de 1980 e 1990. Recebendo o diagnóstico solitário, ele se viu em um turbilhão de emoções e incertezas sobre seu futuro profissional, saúde e rotina.
A Escrita como Terapia e Empoderamento
Rapidamente, a escrita tornou-se uma ferramenta essencial para Rafael. Em janeiro de 2010, ele lançou o blog “Uma Vida Positiva”, onde começou a compartilhar reflexões sobre seu diagnóstico. O espaço, inicialmente terapêutico, ganhou visibilidade entre comunidades do Orkut e se tornou um ponto de apoio para outras pessoas que enfrentavam situações semelhantes.
Com o tempo, o blog evoluiu para um Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) e, posteriormente, se transformou no livro homônimo, publicado em 2012. Rafael percebeu que as pessoas tinham diferentes formas de se relacionar com o tema do HIV e se esforçou para proporcionar informações precisas e acessíveis através de múltiplas plataformas.
Desafios do Tratamento e Rotina de Saúde
No início do tratamento, as diretrizes internacionais sugeriam que a terapia antirretroviral só fosse iniciada quando as defesas do organismo estivessem comprometidas. Rafael passou o primeiro ano sem medicação, com consultas a cada três meses. Ele se tornou voluntário em pesquisas que mudaram as recomendações sobre o início do tratamento, reforçando que pessoas com carga viral indetectável não transmitem o HIV.
Apesar dos desafios, como alergias a antirretrovirais e síndrome do intestino irritável, Rafael se adaptou ao tratamento. Com o tempo, sua rotina de cuidados se simplificou e ele incorporou hábitos saudáveis, como alimentação equilibrada e atividade física. “Hoje, não me lembro da última vez que fiquei doente. Aprendi a ouvir meu corpo e entendi que o tratamento vai além de apenas tomar remédios”, afirma.
Importância da Prevenção e Conscientização
Dados da Vigilância Epidemiológica revelam uma queda nos diagnósticos de HIV na região de Ribeirão Preto e Franca, de 30,2 para 22,7 casos por 100 mil habitantes entre 2017 e 2024. Embora os homens ainda sejam a maioria entre os novos diagnósticos, a proporção de diagnósticos femininos está crescendo, especialmente entre jovens de 20 a 39 anos.
O infectologista Cláudio Penido Campos Júnior destaca que o diagnóstico precoce e o tratamento eficaz são cruciais para a redução da mortalidade. “Hoje, os pacientes podem contar com tratamentos seguros e eficazes, que melhoraram significativamente ao longo dos anos. A prevenção combinada continua sendo essencial para combater outras infecções sexualmente transmissíveis”, adverte.
Rafael Bolacha: Um Exemplo de Superação e Informação
Ao refletir sobre os últimos 16 anos desde o diagnóstico, Rafael enfatiza que a informação é a principal arma contra o preconceito. Ele ressalta a necessidade de discutir mais abertamente sobre HIV, principalmente entre adolescentes e jovens, que muitas vezes não têm acesso a informações precisas. “Se não falamos sobre isso em casa, precisamos discutir na escola. Jovens precisam de orientação, pois nem sempre buscam informações corretas”, conclui.

