Uma Jornada de Superação e Informação
Rafael Bolacha, um ator e dançarino de Ribeirão Preto (SP), recebeu o diagnóstico de HIV há 16 anos, quando tinha apenas 25 anos. Naquela época, ele estava em plena preparação para a primeira parada da Disney no Brasil, em Copacabana, Rio de Janeiro. O impacto do diagnóstico, que veio em um momento tão intenso de sua carreira, trouxe consigo o silêncio que muitos portadores do vírus conhecem muito bem.
A primeira medida que Rafael tomou foi criar um blog sob um pseudônimo, onde registrou suas emoções e experiências. Com o passar do tempo, essa iniciativa evoluiu para um livro, um curta-metragem, apresentações de dança e diversas palestras, sempre com o intuito de ser uma voz de apoio e informação para outros indivíduos na mesma situação.
Atualmente, Rafael usa sua história não só para compartilhar sua vivência, mas também para incentivar o acesso à informação e denunciar a discriminação que ainda persiste entre os diagnosticados com HIV.
“Ninguém merece passar por isso sozinho”, afirma Rafael.
Um Diagnóstico em um Momento Crítico
O ator se lembrou que o diagnóstico chegou em um dos momentos mais agitados de sua carreira. Ele se mudou para o Rio de Janeiro em busca de novas oportunidades artísticas. Durante os ensaios, começou a apresentar sintomas incomuns, como uma diarreia persistente.
“Quando comecei a perceber que a diarreia não tinha relação com mais nada e que já tinha emagrecido 5 kg em três semanas, percebi que algo estava errado. Foi aí que decidi procurar um médico, que solicitou uma série de exames, incluindo o teste de HIV”, contou Rafael.
Naquela época, o resultado do teste demorava cerca de um mês para sair. Ele recebeu a notícia sozinho em casa e, em um primeiro momento, as lembranças da epidemia das décadas de 80 e 90 invadiram sua mente, trazendo referências a figuras como Cazuza e Renato Russo, que também enfrentaram a doença.
Escrita como Terapia e Poder de Transformação
Após o diagnóstico, Rafael se viu em um turbilhão de emoções e incertezas. Na busca por compreensão, ele iniciou um blog chamado “Uma Vida Positiva”. O espaço, inicialmente criado para registrar seus pensamentos de forma terapêutica, logo ganhou popularidade, especialmente entre comunidades do Orkut. Outras pessoas, diagnosticadas recentemente ou com familiares nessa situação, começaram a procurar o blog em busca de orientações.
A escrita não apenas ajudou Rafael a lidar com sua nova realidade, mas também se transformou em um Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) na faculdade de ciências sociais e, mais tarde, em um livro publicado em 2012.
“O blog me deu uma nova perspectiva e tornou-se uma ferramenta poderosa de comunicação”, destacou Rafael.
O Caminho do Tratamento e sua Evolução
Quando recebeu seu diagnóstico em 2009, as diretrizes de tratamento recomendavam iniciar a terapia antirretroviral apenas quando a saúde do paciente estivesse comprometida. Rafael passou seu primeiro ano sem medicação, sob monitoramento médico, e eventualmente se tornou voluntário em uma pesquisa sobre o início precoce do tratamento.
Esse estudo contribuiu para a mudança das diretrizes globais, evidenciando que pessoas em tratamento com carga viral indetectável não transmitem o vírus. No entanto, o caminho não foi fácil; Rafael enfrentou reações adversas a medicamentos e, por um tempo, tomou até sete comprimidos diários.
Hoje, sua rotina de tratamento é bem mais simples e envolve um único comprimido por dia, além de alimentação balanceada e exercícios físicos, proporcionando uma qualidade de vida saudável. “Faz tempo que não fico doente. Aprendi a ouvir meu corpo e a entender que o tratamento vai além da medicação”, afirmou.
Conscientização e Combate ao Preconceito
A realidade da região de Ribeirão Preto e Franca reflete um contexto de redução na detecção de novos casos de HIV, mas ainda existem desafios a serem enfrentados. O infectologista Cláudio Penido Campos Júnior ressalta a importância do diagnóstico precoce e do acesso à terapia.
“Atualmente, o tratamento é seguro e pode ser mantido a longo prazo. Contudo, a informação ainda é a maior arma contra o medo e o preconceito. Precisamos falar mais sobre HIV nas escolas e nas famílias”, finalizou Rafael.
“Se não se fala em casa, deve ser abordado na escola, que é o principal ambiente social dos jovens”, concluiu.
Rafael Bolacha continua sua luta de forma incansável, utilizando sua arte para derrubar barreiras e promover o entendimento sobre o HIV e a prevenção, mostrando que ninguém precisa enfrentar essa jornada sozinho.

