Os Perigos da Inteligência Artificial na Saúde
A experiência de uma consulta médica vai muito além do simples ato de conversar com um especialista. Envolve a marcação de horário, a espera ansiosa e a busca por respostas para questões de saúde. No entanto, com a crescente popularidade do ChatGPT como um ‘médico virtual’, surgem preocupações sobre a segurança e a eficácia dessa abordagem. O lançamento do ChatGPT Health pela OpenAI, que promete facilitar o acesso a informações médicas, acendeu um alerta entre especialistas sobre os riscos envolvidos.
De acordo com a psiquiatra Tânia Ferraz, diretora do corpo clínico do Instituto de Psiquiatria da USP, o principal problema é a propensão do ChatGPT a apresentar informações falsas. Esse fenômeno, conhecido no meio tecnológico como “alucinação”, refere-se à produção de dados imprecisos apresentados de maneira convincente. Estudos indicam que até 50% das respostas do ChatGPT podem conter erros, o que levanta sérias questões sobre a confiança a ser depositada nessa ferramenta.
Práticas Médicas sem Embasamento Científico
Além da questão das alucinações, outro risco é a sugestão de tratamentos sem a devida evidência científica. Em uma reportagem da VEJA, o ChatGPT foi testado em uma consulta sobre reposição hormonal em mulheres na menopausa. A IA sugeriu o uso de testosterona por meio de implantes, uma recomendação que não possui respaldo científico e pode acarretar efeitos colaterais graves. A testosterona, na verdade, deve ser indicada apenas em casos específicos de baixa libido pós-menopausa e sob rigoroso controle médico.
Esses riscos tornam-se ainda mais preocupantes quando considerados os altos índices de automedicação no Brasil. Um estudo recente realizado por pesquisadores da Coreia do Sul revelou que a IA pode recomendar medicamentos inadequados em até 94% dos casos, dependendo da formulação das perguntas. Essa realidade é alarmante, pois o acesso a informações erradas pode ter consequências devastadoras na saúde dos pacientes.
Falsos Diagnósticos e a Limitação da IA
Outro aspecto crítico é a capacidade limitada da IA em realizar diagnósticos precisos. Embora o ChatGPT Health permita que os usuários carreguem exames e recebam insights, muitos problemas de saúde vão além dos dados laboratoriais. Fatore como histórico familiar, hábitos de vida e o contexto emocional do paciente são fundamentais para um diagnóstico eficaz. Em áreas como a psiquiatria, onde a avaliação é bastante subjetiva, a falta de empatia e compreensão da IA pode levar a diagnósticos errôneos.
A Questão da Saúde Mental e a Falta de Empatia
Com a saúde mental em primeiro plano, o ChatGPT tem sido visto por muitos como um terapeuta de fácil acesso. Um relatório da Universidade Harvard indica que sua utilização em psicoterapia deve crescer até 2025. No entanto, especialistas alertam que a falta de empatia e a habilidade de ouvir tornam a IA inadequada para lidar com questões emocionais complexas. A psiquiatra Tânia Ferraz destaca que, enquanto a IA responde a perguntas, ela não capta nuances essenciais, como tom de voz e expressões faciais, que são cruciais no cuidado psicológico.
Confiança Excessiva nas Ferramentas de IA
Outro risco significativo é a confiança exagerada que pacientes e profissionais de saúde podem desenvolver em relação às ferramentas de IA. O acesso rápido a informações, aliado à linguagem convincente, pode levar a decisões erradas baseadas em dados incompletos. Isso se torna ainda mais preocupante quando médicos começam a usar o ChatGPT como uma fonte de referência, desviando-se de seu próprio julgamento clínico. O endocrinologista Carlos Eduardo Barra Couri alerta que isso pode resultar em condutas problemáticas e decisões arriscadas na prática médica.
Como a IA Pode Ser Útil na Saúde
Apesar dos riscos, a inteligência artificial não deve ser completamente descartada. Ela pode ser uma ferramenta valiosa quando utilizada de forma complementar e não como substituta do profissional de saúde. O ideal é que a tecnologia ajude pacientes a organizar informações, a compreender diagnósticos e a formular perguntas mais relevantes durante as consultas médicas. Para os profissionais, a IA pode otimizar processos e liberar tempo para uma comunicação mais aprofundada com os pacientes.
Em suma, a empatia e a conexão humana continuam sendo insubstituíveis no cuidado com a saúde. A IA pode ajudar, mas não deve ser encarada como um substituto da relação médico-paciente, que é baseada em compreensão e habilidades sociais, essenciais para um tratamento eficaz.

