Avanços na Captura de Carbono nas Usinas de Etanol
O etanol, reconhecido como uma alternativa viável aos combustíveis fósseis, se destaca na matriz energética do Brasil. Contudo, sua produção ainda gera impactos negativos ao meio ambiente, principalmente pela liberação de dióxido de carbono (CO₂) durante a queima de biomassa nas usinas. Para minimizar esses efeitos, cientistas brasileiros estão desenvolvendo inovações que não apenas reduzem as emissões, mas também buscam reaproveitar o carbono liberado, reforçando a importância do etanol na economia de baixo carbono.
Dentre as iniciativas mais promissoras, duas pesquisas da Universidade de São Paulo (USP) se destacam. Uma das abordagens foca na captura direta do CO₂ gerado nas usinas, utilizando um sistema inovador que consegue reter a maior parte do gás antes que ele vá para a atmosfera. A outra pesquisa visa transformar o CO₂ em insumo para a construção civil, criando um novo tipo de cimento que, ao incorporar fibras vegetais, se torna mais durável e ambientalmente eficiente.
Equipamento Inovador de Captura de CO₂
Em um estudo realizado em parceria com a Universidade Federal do Ceará (UFC), a USP desenvolveu um equipamento avançado para a captura de dióxido de carbono presente nos gases emitidos pela queima do bagaço e da palha da cana-de-açúcar. Essa tecnologia combina simulações computacionais e experimentos laboratoriais para criar sistemas que são não apenas mais eficientes, mas também viáveis economicamente.
A técnica utilizada se baseia na adsorção por modulação de temperatura, onde o CO₂ é retido em um material sólido conhecido como zeólita, que apresenta uma estrutura porosa. O diferencial do projeto está na otimização do design e da operação do equipamento, o que poderá aumentar em até 95% a eficiência na captura do gás. Essa afirmação é apoiada por Marcelo Seckler, coordenador da pesquisa e professor da Escola Politécnica da USP, que destaca o uso de técnicas avançadas para otimizar o escoamento dos gases e a transferência de calor e massa.
Além de seu potencial ambiental, a viabilidade econômica da tecnologia é um ponto forte. Os dados indicam que o custo de captura por tonelada de CO₂ é competitivo quando comparado a métodos tradicionais que utilizam solventes líquidos. Essa realidade abre portas para uma adoção mais ampla em escala industrial, especialmente em um setor que busca atender a metas de descarbonização.
No entanto, os pesquisadores alertam que ainda existem desafios técnicos a serem superados, como a presença de impurezas nos gases, que pode exigir etapas adicionais de purificação. Apesar disso, há uma expectativa positiva de que melhorias no projeto e no controle térmico possibilitem a aplicação da tecnologia em condições reais, aumentando a competitividade do etanol brasileiro do ponto de vista ambiental.
Cimento Sustentável: Reaproveitando o CO₂ Capturado
Enquanto um grupo de cientistas se dedica à captura do CO₂, outro grupo na Faculdade de Zootecnia e Engenharia de Alimentos (FZEA) da USP, em Pirassununga, trabalha em um novo cimento sustentável que aproveita o gás já capturado. Este cimento inovador, que incorpora fibras vegetais, não apenas absorve CO₂ durante o processo de cura, mas também melhora a resistência e reduz a permeabilidade, resultando em um material mais durável em comparação ao cimento convencional.
Os pesquisadores pretendem substituir parte dos compostos à base de cálcio por óxido de magnésio, uma modificação que torna o cimento menos alcalino e, consequentemente, ajuda a preservar as fibras vegetais. Durante a carbonatação acelerada — fase em que o material é exposto ao CO₂ — o gás é incorporado à estrutura do compósito, auxiliando na diminuição das emissões líquidas do processo.
Conforme explicações do químico Adriano Azevedo, da FZEA, cada metro cúbico desse novo cimento pode absorver cerca de 100 quilos de CO₂. Isso abre possibilidades para que o CO₂ gerado pelas usinas de etanol seja utilizado como insumo, criando uma conexão entre a produção de biocombustíveis e o setor da construção civil, ambos essenciais para a economia brasileira.
Futuro Mais Sustentável com Pesquisa e Inovação
Embora as emissões anuais de produção de etanol no Estado de São Paulo atinjam aproximadamente 11,3 milhões de toneladas, a pesquisa e o desenvolvimento de novas tecnologias podem ser decisivos para a descarbonização do setor sucroenergético. Isso fortalece a sustentabilidade do mercado de biocombustíveis e contribui para o cumprimento das metas globais de mitigação das mudanças climáticas.
Ainda que a implementação dessas inovações exija mais estudos sobre a viabilidade econômica e logística de fornecimento de CO₂, as pesquisas realizadas pela USP demonstram um compromisso com a transição energética. Ambas as abordagens, tanto na captura quanto no reaproveitamento do carbono, convergem para o objetivo comum de reduzir as emissões associadas à produção de etanol e ampliar os benefícios ambientais do biocombustível. Em suma, essas iniciativas não apenas mitigam impactos, mas também sinalizam para um modelo de economia circular, onde o CO₂ é considerado um recurso valioso e não um resíduo indesejado.

