Medicamentos Antiobesidade e o Cérebro
Uma pesquisa recente publicada na revista Nature Medicine lança luz sobre o impacto de medicamentos à base de tirzepatida, como Mounjaro e Zepbound, no cérebro humano. Esses fármacos se mostraram eficazes em suprimir a atividade cerebral relacionada ao desejo por alimentos, um fenômeno chamado de “food noise”. Segundo Fernanda Scagliusi, professora da Faculdade de Saúde Pública (FSP) da USP, a ação desses medicamentos simula os hormônios intestinais que regulam o apetite e o metabolismo, com foco nos receptores de GLP-1 e GIP. “Isso resulta em uma maior sensação de saciedade, diminuição da fome e melhora nos parâmetros metabólicos, como níveis de glicose e sensibilidade à insulina. Além disso, esses medicamentos têm um impacto direto no sistema nervoso central, modulando circuitos cerebrais associados ao apetite e à recompensa”, explica a professora.
Efeitos Colaterais e Considerações Sociais
Apesar dos benefícios, Scagliusi alerta para os efeitos colaterais que podem ocorrer com o uso desses medicamentos. Entre os mais frequentes estão sintomas gastrointestinais como náuseas, vômitos, diarreia e constipação. Esses desconfortos tendem a ser mais intensos no início do tratamento, durante o período de ajuste das doses. “Além disso, é possível que o paciente experimente fadiga, tontura e até uma perda considerável de peso ou massa muscular se a redução for muito rápida”, acrescenta. Ela enfatiza que esses efeitos podem ser intensificados em um contexto sociocultural marcado pela pressão estética, onde muitos indivíduos acabam naturalizando ou minimizando esses desconfortos na busca por um padrão corporal desejado.
Incertezas sobre os Efeitos a Longo Prazo
O endocrinologista Carlos Antônio Negrato, professor da Faculdade de Medicina de Bauru da USP, destaca que ainda há muitas incertezas em relação aos efeitos de longo prazo desses medicamentos. A pesquisa mencionada utilizou um método raro para registrar a atividade elétrica cerebral em áreas relacionadas à motivação e ao desejo alimentar. “Os dados indicaram que a tirzepatida pode reduzir sinais cerebrais associados à compulsão alimentar enquanto está em uso. Contudo, é fundamental ressaltar que o estudo teve uma amostra pequena e não foi um ensaio clínico controlado e randomizado”, afirma Negrato. Ele observa que os efeitos benéficos aparentes podem não se sustentar após a interrupção do uso do medicamento, levantando questionamentos sobre a durabilidade da modulação cerebral proporcionada pela tirzepatida.
O que é o Food Noise?
O conceito de “food noise”, que descreve a constante preocupação com a comida, tem origem controversa. Fernanda explica que essa expressão começou a circular nas redes sociais, entre pessoas que relataram que os medicamentos estavam ajudando a interromper pensamentos intrusivos relacionados à alimentação. “Essa condição não surge isoladamente, mas está muito ligada a fatores ambientais, como a gordofobia estrutural e a cultura da dieta, que refletem um sistema alimentar e social problemático”, conclui.

