Tradição e Sustentabilidade em Jeriquara
Em Jeriquara, São Paulo, uma fazenda centenária se destaca pela preservação da tradição da produção de café, mantida por quatro gerações de mulheres da mesma família. Sob a liderança de Bruna Fernandes Malta, neta da fundadora Juliana, a propriedade coordena todas as etapas da cadeia produtiva de café, demonstrando um compromisso com a qualidade e a inovação.
Bruna, que atualmente gerencia a fazenda, revela que a produção é fruto de um esforço coletivo e envolve o trabalho de sua mãe Sueli e sua bisneta Maria Rita. “Aqui todos têm suas funções e eu fico atenta a cada detalhe do que acontece na lavoura. Esta é uma propriedade que, de fato, é administrada por mulheres”, afirmou Bruna em entrevista.
A história da fazenda remonta ao início do século XX, quando a área era predominantemente coberta por mata e tinha pouco cultivo de café. Juliana relembra que, ao se casar, encontrou um terreno ainda virgem, onde com seu esposo começou a plantar. “Quando cheguei, havia apenas alguns pés de café. O restante era tudo mato. Meu marido e eu trabalhamos com dedicação para criar nossos filhos na lavoura”, compartilhou Juliana.
Transformações na Agricultura
Hoje, a propriedade se estende por mais de 130 hectares, e o cenário é radicalmente diferente. As técnicas que antes eram manuais, como a colheita feita à mão, foram substituídas por máquinas e métodos modernos, que facilitam o trabalho e melhoram a produtividade. Juliana lembra com carinho dos tempos antigos, quando o trabalho era árduo e realizado apenas com ferramentas simples. “No meu tempo, não existia essa modernidade. Era tudo feito na enxada, e a colheita era bem mais complicada”, disse.
Apesar de todas as inovações tecnológicas, a matriarca enfatiza que o cuidado diário com a lavoura permanece como a base do sucesso da produção de café. “Os meus filhos aprenderam a lidar com a terra desde pequenos. A tradição se mantém viva através do trabalho e da dedicação de todos aqui”, completou.
Alta Mogiana: Berço do Café Especial
A fazenda de Jeriquara se insere na Alta Mogiana, região reconhecida pela qualidade de seus cafés. Segundo o pesquisador e especialista Otávio Henrique da Silva Lemes, o café chegou ao interior de São Paulo após se expandir pelo Vale do Paraíba. A formação da região, que compreende 16 cidades paulistas e sete mineiras, foi impulsionada pela antiga Companhia Mogiana de Estradas de Ferro. Esta estrutura foi fundamental para escoar a produção de café e facilitar o transporte de pessoas.
O café, embora associado a uma história de trabalho árduo e exploração, possui um significado econômico importante na região. Ele não só moldou a economia local, mas também está ligado a um passado complexo. “O ciclo do café, em sua essência, é marcado pela dependência do trabalho de inúmeras pessoas, que foram fundamentais para o desenvolvimento dessa atividade”, destacou Otávio.
Atualmente, a Alta Mogiana é reconhecida pela produção de cafés especiais, em grande parte devido às suas características geográficas, como altitude e solos de origem vulcânica, que favorecem o cultivo de grãos de qualidade superior.
Turismo Rural e Atrações
A fazenda não é apenas um local de produção de café, mas também se tornou um destino turístico. O espaço está aberto à visitação e oferece um roteiro completo que ensina os visitantes sobre todas as etapas do processo do café, desde a lavoura até a xícara. Os tours, que custam R$ 200 por pessoa, incluem café da manhã e almoço, e são realizados sob demanda.
“Quando olho para tudo isso, sinto uma imensa gratidão. Conquistamos muito com o nosso esforço, e o café é uma tradição que vamos continuar a passar para as próximas gerações”, concluiu Bruna, refletindo sobre o futuro da fazenda.
Assim, a fazenda centenária em Jeriquara segue como um símbolo de resistência e adaptação, mostrando que, mesmo com as mudanças trazidas pela modernidade, a essência do cultivo do café e o papel das mulheres na sua história permanecem mais vivos do que nunca.

