Desigualdades Raciais na Violência Letal
Uma nova pesquisa intitulada “Desigualdades raciais e regionais nos homicídios no Brasil”, conduzida por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) e recentemente publicada na revista Ciência & Saúde Coletiva, traz à luz uma realidade alarmante que já é percebida no cotidiano: a violência letal no Brasil afeta desproporcionalmente a população negra. De acordo com o estudo, indivíduos negros apresentam 49% mais chances de serem assassinados em comparação com pessoas brancas, mesmo levando em consideração variáveis como gênero, idade, escolaridade, estado civil e localização geográfica.
O levantamento, que utilizou dados do Sistema de Informações sobre Mortalidade e do Censo Demográfico de 2022, analisou mais de 42 mil homicídios registrados no Brasil durante o ano passado. Os resultados indicam que a maioria das vítimas são homens jovens, solteiros e com baixa escolaridade, com uma predominância notável entre as vítimas pretas e pardas. Em áreas identificadas como hotspots, onde a violência é mais concentrada, aproximadamente 90% das mortes violentas envolvem pessoas negras.
Desigualdades Regionais e Efeitos do Racismo Estrutural
A pesquisa também expõe as marcantes desigualdades regionais no Brasil. Municípios localizados, especialmente no Nordeste e em certas partes da Amazônia, apresentam taxas de homicídio que podem ser até cinco vezes maiores do que as de cidades nas regiões Sul e Sudeste. Nessas áreas mais afetadas, a seletividade racial da violência se torna ainda mais evidente, evidenciando uma relação direta entre desigualdade territorial, racismo estrutural e letalidade.
Mesmo com o uso de técnicas estatísticas avançadas, como a análise geoespacial e o pareamento por escore de propensão, a cor da pele se manteve como um fator independente que aumenta o risco de homicídio. Em um dos modelos analisados, a probabilidade de pessoas negras serem assassinadas foi 2,3 vezes maior em relação às pessoas brancas. Esses achados reforçam que a disparidade na mortalidade não pode ser explicada apenas por fatores socioeconômicos ou espaciais, ressaltando a influência do racismo estrutural na dinâmica da violência no Brasil.
O pareamento por escore de propensão é uma técnica que compara indivíduos de diferentes raças em condições sociais semelhantes, levando em conta fatores como idade, escolaridade, endereço e estado civil. Essa metodologia colabora para isolar o impacto da cor da pele, evitando que as diferenças observadas sejam atribuídas meramente a desigualdades socioeconômicas.
A Necessidade de Políticas Públicas Eficazes
Os dados obtidos na pesquisa evidenciam a urgência de políticas públicas integradas e focadas, que abordem a violência a partir de uma perspectiva racial, social e regional. Investimentos contínuos em áreas como educação, saúde, cultura, esporte, geração de renda e políticas voltadas para a juventude são cruciais para a diminuição da violência letal. Além disso, é fundamental reorientar as políticas de segurança pública para modelos que priorizem a prevenção, proteção da vida e respeito aos direitos humanos.
A pesquisa da USP demonstra que a violência no Brasil não é aleatória ou neutra; ao contrário, ela tem cor, território e classe social definidas. Transformar esse diagnóstico em ação exige um compromisso real do Estado com políticas públicas estruturantes e duradouras, que levem em consideração a necessidade de enfrentar o racismo, reduzir desigualdades e garantir o direito à vida como um princípio central em uma sociedade democrática.
A pesquisa completa pode ser acessada em: https://doi.org/10.1590/1413-81232026311.00252024. Este estudo foi realizado por Rildo Pinto da Silva e Antonio Pazin-Filho, da Universidade de São Paulo, campus de Ribeirão Preto, e publicado na revista Ciência & Saúde Coletiva, volume 31, número 1, 2026. DOI: 10.1590/1413-81232026311.00252024.

