Um panorama de violência: números alarmantes
A violência política no Brasil, assim como outras formas de agressão, deixa um legado devastador de dor e sofrimento. Nos últimos 20 anos, o Brasil contabilizou 760 mortes relacionadas a essa modalidade de violência, conforme um estudo conduzido pela Universidade de São Paulo (USP) em parceria com o Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap). A pesquisa abrangeu casos de violência contra políticos profissionais, que incluem não apenas atuais ocupantes de cargos, mas também candidatos e ex-candidatos, assim como ativistas ligados a sindicatos, movimentos sociais e organizações civis. Esses dados revelam uma média de 61,4 mortes anuais, o que equivale a cerca de 5,1 assassinatos mensais. Vale destacar que muitos desses casos enfrentam dificuldades para serem registrados oficialmente, pois, em algumas situações, não há sequer processos judiciais abertos. “Quando os corpos desaparecem, não existem processos”, adverte a professora Angela Alonso, do Departamento de Sociologia da FFLCH, que lidera a pesquisa.
Com o objetivo de contornar as dificuldades na coleta de informações, os pesquisadores optaram por um levantamento baseado nas notícias divulgadas pela grande imprensa ao longo de duas décadas. Esse intervalo abrange desde a ascensão do primeiro governo de esquerda após a ditadura militar até a tentativa de golpe de Estado em 8 de janeiro. Segundo Angela, essa é uma pesquisa inovadora, pois as investigações anteriores no Brasil costumavam focar em regiões específicas e em políticos, enquanto os dados sobre ativistas eram praticamente inexistentes. “Este estudo é pioneiro ao compilar dados sobre assassinatos, ameaças e tentativas de assassinatos de ambos os grupos simultaneamente”, esclarece a pesquisadora, que também aponta as distinções nas ameaças enfrentadas por aqueles que atuam dentro e fora das instituições políticas. Os ativistas, que se inserem neste segundo grupo, são particularmente vulneráveis em certas áreas, enquanto os políticos locais também correm riscos elevados, tornando-os alvos frequentes de violência política.
Violência política: disparidades regionais e características dos crimes
Além dos dados sobre as vítimas, a pesquisa revela diferenças regionais significativas relacionadas à violência política. Os estados de Roraima e Mato Grosso figuram entre os que mais registram crimes políticos no Brasil. Em contrapartida, cidades como Lajeado do Bugre, no Rio Grande do Sul, e Santo Expedito, em São Paulo, apresentam números que fogem à média nacional. Angela ressalta que a violência política tende a se concentrar em áreas urbanas, contrariando a suposição de que seria mais comum em zonas rurais. “Ela está presente em todos os estados, não se restringindo a regiões específicas”, enfatiza.
Outro dado interessante é que a maioria dos crimes políticos, próximos a 90%, é cometida com uso de armas de fogo. “Não se pode classificar essa violência puramente como vingança, como em muitos casos de agressões diretas. O que encontramos na maioria das ocorrências foi a utilização de armas de fogo, especialmente em execuções – tiros na cabeça ou no coração, disparados à distância, frequentemente por pessoas sem vínculos diretos com as vítimas”, explica Angela. Essa característica levanta a suspeita de que muitos desses crimes são realizados por profissionais, os chamados pistoleiros de aluguel. É notável também que muitos desses assassinatos ocorrem em plena luz do dia e em locais públicos, incluindo prédios governamentais, ao contrário do que se poderia esperar. Esses crimes tendem a ocorrer mais em pequenas cidades, mostrando uma tendência de confinamento ao cenário político local.
Motivações por trás dos assassinatos
Angela aponta duas conclusões significativas a partir do estudo. A primeira está relacionada aos motivos que levam ao assassinato de ativistas ou políticos. Os ativistas costumam ser alvos em função de conflitos de terra, enquanto os políticos são assassinados principalmente por questões políticas, envolvendo disputas institucionais ou candidaturas. “Observamos que diferentes grupos populacionais enfrentam riscos distintos”, destaca. A segunda conclusão aponta para variações de violência em relação aos governos, sendo a incidência de homicídios muito maior durante os governos de direita em comparação com os de esquerda.
“Esse dado é crucial para a formulação de políticas públicas. O discurso de segurança mais forte promovido pelos governos de direita não tem refletido em proteção efetiva para ativistas e políticos. Observamos um aumento expressivo na taxa de homicídios: 63,3% durante o governo Temer, 51% no governo Bolsonaro, contra apenas 21,5% no primeiro governo Lula. A diferença é alarmante”, afirma. Angela sugere a criação de um observatório que monitore esses casos, realizando levantamentos sistemáticos para identificar áreas de maior risco e desenvolver políticas de proteção específicas. Por fim, a professora acredita que é possível prevenir assassinatos políticos, dado que esses crimes seguem uma sequência lógica que envolve ameaças, tentativas e, eventualmente, a consumação do ato violento.

