Panorama da Violência Política no Brasil
Entre 2003 e 2023, o Brasil contabilizou 1.228 casos de violência política letal, incluindo assassinatos, tentativas de assassinato e ameaças graves de morte, conforme aponta um estudo realizado pela Universidade de São Paulo (USP) em parceria com o Cebrap (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento). Desses casos, 760 resultaram em mortes, enquanto 358 envolveram tentativas de assassinato e 110 ameaças de morte.
De acordo com a pesquisa, isso representa uma média alarmante de 61,4 casos por ano, ou aproximadamente 5,1 casos mensais, o que é considerado extremamente elevado para uma democracia consolidada. Angela Alonso, professora da USP e responsável pelo estudo, ressalta a gravidade desses dados.
Metodologia Rigorosa e Resultados Preocupantes
O levantamento se baseou em uma extensa coleta de dados, extraídos de reportagens publicadas no portal G1 (de 2010 a 2023) e no jornal O Globo (de 2003 a 2013). A seleção das notícias envolveu um processo automatizado, onde foram testadas palavras-chave como “assassinato político” e “homicídio político”, resultando em mais de 100 mil notícias relevantes que foram posteriormente analisadas pelos pesquisadores.
A consistência dos padrões identificados ao longo do estudo corrobora com outras pesquisas na área, sugerindo que a subnotificação pode ser um problema, o que torna o cenário ainda mais preocupante. A análise revela que a maioria dos casos, cerca de 63%, diz respeito a políticos, desafiando a percepção comum de que eles estariam mais protegidos em comparação a ativistas, que somam 36% das vítimas.
Perfil das Vítimas e Localização dos Atentados
A pesquisa ainda ressalta que indivíduos sem cargo ou candidatura são os mais afetados, representando 60% dos casos de violência, em contraste com 31% entre aqueles que ocupam mandatos e 8% entre candidatos. A violência atinge com maior intensidade os políticos que atuam em nível municipal, que somam 88% dos casos, uma tendência reconhecida em outros estudos que indicam que a “política local é particularmente violenta” no Brasil.
Quando analisados os dados por estado, Alagoas se destaca como o local com maior taxa de violência, registrando 20,1 casos por 1 milhão de eleitores, seguido pelo Acre (16,2), Rio de Janeiro (11,4) e Mato Grosso (11,1). Os pesquisadores atribuem a situação em Alagoas a uma competição política intensa, geralmente relacionada a disputas por recursos e contratos, enquanto no Rio de Janeiro, a presença de milícias e organizações criminosas agrava o cenário.
Motivos e Contexto das Violências
Um dado alarmante revelado pelo estudo é que 47% das ameaças e assassinatos estão ligados a disputas por cargos, poder e recursos públicos. A maioria dos ataques ocorre nas áreas urbanas (83%) e em períodos de eleições municipais, enquanto os ativistas enfrentam mais riscos em regiões rurais, com 72% das mortes ocorrendo em áreas agrícolas ou florestais.
Os conflitos por terra são destacados como uma das principais causas de ameaças e homicídios de ativistas, com Roraima e Mato Grosso do Sul apresentando as mais altas taxas de violência. Em Roraima, os conflitos em torno do território yanomami estão entre as causas apontadas pelos pesquisadores, com Alonso enfatizando que esses homicídios muitas vezes envolvem disputas de terras e recursos naturais.
Armas e Métodos de Assassinato
A pesquisa ainda revela que 88% dos assassinatos foram cometidos com armas de fogo, seguidos por 6% utilizados com armas brancas. Os especialistas indicam que a predominância de mortes sem contato físico direto sugere que essas ações não são motivadas por vingança ou ódio, mas sim por planejamentos sistemáticos. “Os assassinatos políticos geralmente são organizados e executados de maneira profissional, influenciados pela disponibilidade de armas e pela normalização de seu uso na sociedade”, afirmam os autores.
Os números de assassinatos mostraram uma queda significativa durante os governos de Lula, mas aumentaram durante o governo Dilma, coincidindo com uma forte crise política. A transição para um governo mais à direita, segundo Alonso, intensificou um discurso que favorece a resolução de conflitos por meio da violência, refletindo uma tendência preocupante na sociedade brasileira.

