Da oficina ao YouTube: a trajetória de Lito Sousa
Joselito Geraldo de Sousa, conhecido como Lito Sousa, tinha uma relação profunda com aviões muito antes de se tornar uma figura famosa na internet. Mecânico internacional de aeronaves, ele acumulava mais de 20 anos de experiência na área quando decidiu compartilhar seu conhecimento online. Em 2010, criou o canal Aviões e Músicas no YouTube, onde explicava o funcionamento das aeronaves, desvendava histórias dos bastidores da aviação e tirava dúvidas sobre temas que geram receio em passageiros, como a segurança dos voos.
O canal cresceu e conquistou uma legião de seguidores. Aos 59 anos, Lito acumulava mais de 3,7 milhões de inscritos e era uma das principais vozes brasileiras em aviação digital. Nos últimos meses, porém, seu conteúdo ganhou um novo significado, após o diagnóstico da doença rara Creutzfeldt-Jakob (DCJ), revelado por sua esposa, Mila Seidl. Na última quinta-feira (1º/10), o perfil oficial de Lito no Instagram anunciou sua morte com um vídeo de homenagem.
Carreira marcada por dedicação e responsabilidade
Antes da fama na internet, Lito construiu uma carreira sólida na aviação. Ainda jovem, fez um curso técnico na Força Aérea Brasileira (FAB) e, em 1986, aos 19 anos, iniciou sua trajetória profissional na Varig. Em uma publicação no LinkedIn, ele relembrou os anos de trabalho intenso, com jornadas longas e folgas curtas, ressaltando que cada parafuso apertado era feito com responsabilidade e nunca comprometeria a segurança.
Em menos de dois anos, Lito se tornou inspetor na Varig e depois passou por outras companhias, como a Transbrasil e a United Airlines, onde atuou por 25 anos. Em 2004, insatisfeito com a forma como a aviação era retratada na mídia, criou o blog Aviões e Músicas, que em 2010 virou canal no YouTube e rapidamente ganhou popularidade.
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Conteúdo acessível para todos
O primeiro vídeo no YouTube foi publicado em julho de 2011, durante uma feira de aviação em São Paulo, com uma entrevista sobre um avião experimental. O formato que consolidou o canal era simples: traduzir assuntos técnicos para o público geral, abordando temas como turbulências, ruídos, funcionamento dos motores, procedimentos de emergência e até acidentes aéreos. Em 2015, o canal ultrapassou 100 mil inscritos.
Com o sucesso, Lito estendeu sua presença para outras redes sociais, como Instagram e TikTok, além de participar de programas de TV, podcasts e entrevistas como especialista em segurança aérea. Em 2025, em reportagem da BBC News Brasil, defendeu a importância histórica de Santos Dumont na aviação, destacando o pioneirismo do 14-Bis.
Novos desafios e conquistas pessoais
A experiência de Lito também virou livro. Em 2019, publicou “Onde Morrem os Aviões”, no qual narra sua missão de levar conhecimento técnico a mecânicos no então Zaire, atual República Democrática do Congo. Aos 53 anos, decidiu se tornar piloto após críticas sobre seu conhecimento. A série “Decola Lito” registrou seu percurso para tirar a licença de piloto, incluindo o primeiro voo solo em São José dos Campos, que teve quase 1 milhão de visualizações.
Além disso, criou um curso para pessoas com medo de voar e, junto com Mila, fundou a Lito Aviation Academy, voltada à formação de profissionais como comissários, pilotos, mecânicos e engenheiros. Segundo ele, o objetivo era fortalecer a segurança dos voos por meio de treinamento de qualidade.
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O impacto da doença rara
Nos últimos meses, a saúde de Lito ganhou atenção. Em julho, revelou ter câncer de próstata e, logo depois, uma inflamação no sistema nervoso. Em agosto, Mila anunciou o diagnóstico de Creutzfeldt-Jakob, uma doença neurodegenerativa rara e rápida, causada pela acumulação de proteínas anormais chamadas príons. A DCJ afeta entre 1 a 2 pessoas por milhão anualmente no mundo e não possui tratamento aprovado para interromper sua progressão.
Durante esse período, Lito se tornou uma referência para quem buscava entender melhor questões relacionadas a medo e segurança em voos. Em setembro, Mila anunciou que ele recebeu doses de uma medicação experimental, ALN-6457, da empresa Regeneron Pharmaceuticals, dos EUA. Em sua última aparição pública, Lito fez um apelo por uma vaga em pesquisas experimentais, demonstrando sua luta até o fim.
Lito Sousa deixa um legado que vai muito além da internet. Ele traduziu a aviação para milhões de brasileiros, mostrando que conhecimento e paixão podem transformar vidas. Seu exemplo reforça a importância da informação clara e acessível para a segurança e tranquilidade dos passageiros.

