Rinovírus: o grande vilão das infecções respiratórias
Uma pesquisa recente realizada na Universidade de São Paulo (USP) apontou que as amígdalas e adenoides podem atuar como verdadeiros ‘esconderijos’ para o rinovírus, principal causador do resfriado e responsável por uma significativa parcela das infecções respiratórias no mundo. O estudo, que contou com a participação de 293 crianças submetidas à remoção desses tecidos, revelou que o vírus consegue infectar células de defesa chamadas linfócitos, permanecendo nelas por períodos prolongados, mesmo na ausência de sintomas.
O rinovirologista Eurico de Arruda Neto, professor da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP-USP) e coordenador da pesquisa, financiada pela FAPESP, comenta sobre a relação entre a volta às aulas e os surtos de rinovírus: “Todo ano, algumas semanas após o início do período escolar, observamos um aumento nos casos de infecções respiratórias. Isso ocorre, em parte, porque crianças que podem estar carregando o vírus, mas sem apresentar sintomas, compartilham o mesmo ambiente, facilitando a sua disseminação”.
Como o rinovírus se multiplica sem causar sintomas
Arruda explicou que, além de já ser conhecido que o rinovírus infecta a mucosa nasal e da garganta, sequestrando o maquinário celular para sua reprodução, o grande achado do estudo foi a capacidade do vírus de alcançar camadas mais profundas das amígdalas e adenoides. Ali, ele infecta linfócitos B e T CD4, células que possuem a função de produzir anticorpos e coordenar a resposta imunológica, respectivamente.
Diferente do que se acreditava, o rinovírus não mata essas células, mas fica latente dentro delas, em um estado de persistência que se assemelha ao que ocorre com os vírus herpes e HPV. “As amostras analisadas foram coletadas de crianças que, no momento da cirurgia, não apresentavam sintomas, mas mesmo assim conseguimos detectar o rinovírus em uma quantidade significativa”, aponta Arruda.
Dados reveladores sobre a presença do rinovírus
Além de investigar as amígdalas e adenoides, o estudo também analisou as secreções nasais das crianças. Os resultados, publicados no Journal of Medical Virology, mostraram que o rinovírus estava presente em pelo menos um dos três locais (amígdala, adenoide ou secreção nasal) em 46% dos participantes. A presença de proteínas virais e outros indicadores de replicação viral foram observados, sugerindo que o vírus estava apto a infectar outras pessoas.
O estudo também contou com a colaboração de outros especialistas, incluindo o virologista Ronaldo Martins e os professores Wilma Anselmo-Lima, Edwin Tamashiro e Fabiana Valera, todos da FMRP-USP. Arruda destaca que, com base em pesquisas anteriores, já era possível identificar outros vírus, como o adenovírus e o SARS-CoV-2, em amostras semelhantes.
Implicações para a saúde infantil e diagnósticos
As descobertas do estudo ressaltam a importância de uma análise mais cuidadosa em diagnósticos pediátricos. Arruda alerta: “Quando uma criança com amígdalas aumentadas chega ao pronto-socorro com sintomas de bronquiolite, pode ser que o teste de cotonete detecte o rinovírus, que já estava presente devido a uma infecção anterior, e não a causa atual da doença”.
Ele acrescenta que essa persistência viral também pode representar um risco adicional para pacientes imunossuprimidos, como aqueles que passaram por transplantes de medula, uma vez que a reativação do vírus poderia ocorrer devido à baixa imunidade do paciente.
Em resumo, os resultados deste estudo abrem novos caminhos para a compreensão de como os vírus respiratórios agem nas crianças e suas possíveis implicações na saúde a longo prazo. Com isso, é essencial que os profissionais de saúde considerem não apenas os sintomas imediatos, mas também a história viral das crianças para um diagnóstico mais eficaz.

