O Percurso Acadêmico e a Pesquisa de Rafael Juliani
Rafael Paulino Juliani iniciou sua jornada acadêmica na Faculdade de Ciências Agrárias e Veterinárias da Unesp, em Jaboticabal, onde se formou em Administração de Empresas em 2013. Desde então, ele tem se dedicado a explorar as relações entre a comunidade LGBT+ e o universo do trabalho. Essa investigação começou a partir de suas próprias inquietações enquanto homem gay, que se deparou com desafios ao tentar planejar sua carreira no ambiente corporativo durante a graduação.
Foi nas aulas da professora Ana Paula Leivar Brancaleoni que Rafael encontrou o impulso necessário para transformar suas experiências pessoais em um objeto de estudo acadêmico. A conexão com a psicologia e o interesse por questões que o tocavam diretamente o levaram a desenvolver uma iniciação científica focada na inclusão de pessoas LGBT+ em pequenas e médias empresas na região de Ribeirão Preto, tema que mais tarde se tornaria seu trabalho de conclusão de curso.
Do Mestrado ao Doutorado: Investigando Representações Sociais
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Fonte: parabelem.com.br
Após concluir a graduação, Rafael avançou para o mestrado em psicologia na Unesp de Araraquara, sob a orientação da professora Rosemeire Aparecida Scopinho. Durante essa fase, ele se dedicou a estudar as representações sociais de indivíduos que não se enquadram nos padrões cisheteronormativos. “Busquei entender como essas pessoas percebem o trabalho em suas vidas. No doutorado, investi em um estudo de caso em uma empresa que se proclamava inclusiva e amigável ao público LGBT+, mas que, na prática, não implementava políticas concretas para esse grupo. As ações que existiam eram superficiais, mais voltadas para criar uma imagem de inclusão do que para proporcionar uma real integração”, relata Rafael.
A Necessidade de Políticas Institucionais
Atualmente, Rafael ocupa a posição de pós-doutorando na Faculdade de Ciências e Letras da Unesp, câmpus de Assis, e destaca a urgência de políticas institucionais para a permanência de estudantes LGBT+ no ensino superior, com foco particular na população trans e travesti. “Segundo dados da Associação Nacional de Travestis e Transexuais, cerca de 70% das pessoas trans e travestis são expulsas do ambiente escolar básico e médio, enfrentando diversas formas de violência. Esse panorama resulta em menos de 0,3% dessa população chegando à universidade, e mesmo entre os que conseguem ingressar, a permanência não é assegurada”, explica.
Rafael enfatiza a importância de que toda a estrutura universitária, desde a gestão até o corpo docente, passe por uma preparação adequada para acolher esses estudantes. Essa formação deve incluir, entre outras coisas, o reconhecimento do nome social e dos pronomes, bem como a inclusão de autores trans nas bibliografias obrigatórias das disciplinas.
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Fonte: gpsbrasilia.com.br
Realidade das Empresas no Brasil
Ao examinar o cenário das empresas brasileiras, o pesquisador observa que as iniciativas de inclusão de pessoas LGBT+ são predominantemente adotadas por grandes corporações, muitas delas multinacionais. Contudo, essa situação tornou-se volátil após declarações do atual presidente dos Estados Unidos, que se opôs a políticas de diversidade. Rafael cita o exemplo do Fórum de Empresas e Direitos LGBT+, em São Paulo, que em 2025 teve uma queda de cerca de 25% em suas signatárias, resultando na saída de aproximadamente duzentas empresas da carta de compromisso de inclusão.
Mesmo nas organizações que se dizem favoráveis à diversidade, práticas limitantes ainda são comuns. Frequentemente, profissionais LGBT+ são designados para funções que minimizam seu contato com o público. Além disso, muitos optam por não compartilhar aspectos de suas vidas pessoais no ambiente de trabalho, temendo reações hostis ou perda de credibilidade profissional.
Iniciativas Governamentais e Desafios Persistentes
Em contrapartida, Rafael destaca uma nova iniciativa do Estado brasileiro: o Projeto Empodera+, lançado em julho de 2024 pelo Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania. Essa proposta tem como objetivo criar condições dignas de trabalho, educação e geração de renda para pessoas LGBTQIA+ em situação de vulnerabilidade social, estando atualmente em fase piloto nos estados do Maranhão, Espírito Santo, Ceará e Pará. Inspirado no programa Transcidadania, o projeto prevê a concessão de bolsas de estudo e a preparação para o mercado de trabalho. Rafael observa que essa iniciativa representa um reconhecimento de que a responsabilidade pela inclusão da população LGBT não deve ser exclusivamente da iniciativa privada.
No entanto, o pesquisador ressalta que muitos obstáculos persistem, e o contexto brasileiro continua a ser permeado por preconceitos e barreiras que dificultam a vivência de um ambiente de trabalho equitativo e seguro para as pessoas LGBT+.

