A transição de mãe para mãe de adolescente
Nos anos 90, escrevi uma peça intitulada “Confissões de Adolescente”, que se tornou um grande fenômeno cultural. De 17 a 23 anos, percorri o Brasil com um grupo de quatro meninas, todas encarceradas em um universo onde nossa vivência ressoava com a juventude da época. Lembro-me de dividir quartos, escapar pelas portas dos fundos dos hotéis e ser acompanhada por seguranças em shoppings, tudo isso para evitar o frenesi das adolescentes que se viam em nossas histórias. Minhas lembranças daquela época são recheadas de risos e de inseguranças, cercada por amigas e irmãs, além de um público que vivia intensamente as mesmas dúvidas da adolescência.
Mas, de repente, o tempo passou e a minha vida deu uma guinada. Tornei-me mãe de uma adolescente. Minha filha, assim como muitas outras da sua idade, navega pelo TikTok e, com isso, tem se deparado com a imagem de si mesma muito cedo, através das telas. Ela fala uma nova língua cheia de gírias que, para mim, soam como um enigma: rz (resenha), ss (sim) e ctz (com certeza) são apenas algumas das expressões que ela utiliza. Ao perceber suas reações, especialmente quando ela me olha de forma estranha, sinto uma compaixão renovada pela minha mãe. Como ela conseguia dormir sem aplicativos que vigiam a vida da juventude? Sem ter que lidar constantemente com as violências que afetam nossos jovens todos os dias?
Reflexões sobre o papel de mãe na era digital
Fomos educadas em um contexto com muito menos informações. Sem as constantes notificações e algoritmos que nos trazem uma avalanche de notícias que, muitas vezes, causam desconforto. Como conseguir educar com serenidade em um mundo que nos faz perder a fé na humanidade a cada instante? Como avaliar se estou sendo uma boa mãe quando, a cada esquina da internet, surgem novas vozes de terapeutas dizendo que posso estar errada?
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Ainda assim, eu gosto de estar rodeada por adolescentes. Há algo de cômico na espontaneidade que eles ainda possuem, uma intensidade que, com o passar do tempo, tende a se dissipar. Esses altos e baixos emocionais nos lembram do quão vivos somos. Admiro suas histórias, suas pequenas confusões e as gírias que, mesmo que eu não entenda completamente, me fazem rir. Existe uma energia de grupo entre eles que é contagiante, mesmo que eu insista que o mais legal da vida é ser único. Mas, claro, quem em sã consciência escuta a mãe aos 16 anos?
A pressão da geração digital
Com toda a certeza, mesmo sendo donos de suas verdades e muitas vezes difíceis de agradar, eu sinto pena deles. Não é uma tarefa fácil ser jovem no cenário atual. As informações são tantas que mal resta tempo para que descubram quem realmente são. O tempo que minha filha dedica ao TikTok, eu utilizei para ler livros, anotar em agendas ou escrever cartas. Na minha adolescência, não havia como maquiar a vida, pois nem me olhava no espelho. Eu não ouvia playlists isoladamente com fones de ouvido; cantava junto a amigos ao redor de um violão. Vivia intensamente, chorando, rindo, vivendo experiências que ninguém documentava.
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Fonte: diariofloripa.com.br
Talvez a minha paciência com esses jovens que choram e riem em um mesmo dia seja uma forma de saudade antecipada, já que a adolescência representa a última fase antes de se tornarem adultos. Logo chega a faculdade, a competição, a pressão por produtividade e as expectativas de formar uma família. Daqui a pouco, os 18 anos vão chegar e não poderei mais impor: “Você não vai à festa.” E, certamente, não quero ouvir: “Mãe, para com isso, eu tirei nota boa.”
Um olhar esperançoso sobre o futuro
Esta é a última oportunidade de protegê-los sob nossas asas, de poder dormir tranquila quando eles chegam em casa, de solucionar problemas que ainda não compreendem totalmente. Tenho a chance de levar minha filha ao médico e de contribuir para moldar um adulto forte, legal e que se importa com o mundo ao seu redor. Porque, mesmo que eles pareçam desinteressados, no fundo, ainda somos suas referências. Portanto, é fundamental aproveitar esses momentos, pois, em breve, elas deixarão de ser “manas”, de ter a “várzea”, de nos chamar de aleatórios e se transformarão em adultos funcionais, sorridentes e prontos para agradar o mundo. E, acredite, sentirei uma profunda falta de ouvir aquele chamamento: “MÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃE” três vezes ao dia.

