As Memórias de um Grande Atleta
No universo do jornalismo esportivo, as histórias que permeiam as vidas e as carreiras dos atletas muitas vezes se tornam tão impactantes quanto as notícias que reportamos. Ao longo da minha trajetória na editoria de Esportes da Folha, desde os anos 1990, tive a oportunidade de cobrir eventos olímpicos, com um foco especial no basquete. Este percurso me levou a conhecer de perto treinos e jogos, além de entrevistar ícones do esporte, como Oscar Schmidt, cuja passagem pelo basquete brasileiro deixou um legado indelével.
Recebi com tristeza a notícia do falecimento do eterno camisa 14 nesta sexta-feira (17). Para muitos, Oscar não era apenas um atleta; ele era uma lenda viva. Nos anos 80, quando eu ainda era criança, a camisa 14 que fazia sucesso era a dele, não a de Cruyff do futebol. Enquanto jogava futebol, meu interesse pelo basquete também crescia, especialmente durante as competições do Sírio, onde Oscar jogava ao lado de grandes talentos como Marquinhos Abdalla, que também já nos deixou.
A Importância do Trabalho Dedicado
Oscar sempre se destacou por sua determinação e habilidade em quadra. Ele tinha uma presença marcante, e as suas famosas enterradas, especialmente quando recebia um passe do Carioquinha, eram verdadeiros espetáculos. Quando tive a chance de encontrá-lo cerca de 15 anos depois de acompanhar sua carreira, um fato me impressionou: eu carregava quase que secretamente uma “carteirinha de fã” dele, um reconhecimento que preferi manter só para mim, sempre respeitando meu papel como jornalista.
Os encontros com o “Mão Santa” foram raros, mas marcantes. Lembro de uma visita à sua casa em Alphaville, onde ele me recebeu com hospitalidade. Durante nossa conversa, Oscar revelou que sua precisão nos arremessos era resultado de um esforço incansável nos treinos, quando frequentemente arremessava por horas. Ele creditou grande parte de seu sucesso à presença constante de sua esposa, Cristina, que o apoiava passando a bola durante essas sessões. Sem o incentivo dela, ele acreditava que não teria alcançado a excelência que o tornou famoso.
Os Desafios da Imprensa e a Verdade dos Números
Outra lembrança marcante ocorreu em 1998, quando fui entrevistá-lo em seu gabinete, onde atuava como secretário de Esportes da cidade de São Paulo. O foco da conversa era sua impressionante contagem de pontos, que já o colocava entre os melhores do mundo, atrás apenas do lendário Kareem Abdul-Jabbar. Contudo, percebi que a validação dessa contagem era contestada devido à falta de registros precisos, o que me levou a escrever uma matéria com o título polêmico: “Oscar prepara-se para ‘falsos’ 40 mil”. Essa abordagem não caiu bem com sua esposa, que se preocupava com a imagem do marido. Em um evento subsequente, fui barrado por Cristina, que não queria que eu me aproximasse dele.
A Redenção nas Quadras
O tempo, felizmente, curou as mágoas. Oscar voltou a falar comigo, e continuei a acompanhar sua carreira durante sua permanência na Grande São Paulo. Em uma conversa, comentei sobre a surpreendente mudança em seu estilo de arremesso, especialmente com o uso da tabela, algo que ele passou a fazer com frequência e maestria. Ninguém mais na época tinha essa técnica tão apurada.
Em uma partida no clube Pinheiros, enquanto assistia ao jogo, Oscar, ao me avistar, fez um arremesso perfeito com a tabela e virou-se para mim com um sorriso maroto, como se dissesse: “Viu? É fácil”. Essa imagem se tornou uma das mais memoráveis da minha relação com ele, ao lado, claro, da preocupação de Cristina. Oscar Schmidt não era apenas um atleta fenomenal; ele era um reflexo da paixão e do empenho que o basquete brasileiro representa. Sua presença e seu legado continuarão vivos na memória de todos nós que tivemos a sorte de testemunhar sua trajetória.
