O Legado Histórico de Salvador
Décadas antes de serem reconhecidos como uma verdadeira riqueza, os elementos históricos de Salvador enfrentaram severas destruições em nome da modernização. Segundo estudiosos, o Centro da cidade, que abriga a maior parte das suas riquezas, foi palco de intervenções que mudaram seu cenário. Um dos casos mais emblemáticos ocorreu na década de 1910, quando, durante as obras da Avenida Sete de Setembro, icônicos imóveis foram demolidos, entre eles a antiga Igreja de São Pedro, que deixou um vazio doloroso na memória coletiva.
Após a destruição da igreja, no mesmo local foi instalado o Relógio de São Pedro. A nova igreja, ergida na Praça da Piedade, a cerca de 280 metros do original, não conseguiu recuperar as características que tornavam o templo anterior especial.
A Igreja da Sé e a Luta pelo Patrimônio
Outro exemplo marcante é a derrubada da Igreja da Sé, na década de 1930, planejada para dar lugar a linhas de bonde que nunca foram implementadas. A área agora é conhecida como Praça da Cruz Caída, onde se ergue um monumento em homenagem ao templo perdido. O historiador Jaime Nascimento menciona que existiam propostas para um túnel que passaria pela igreja, permitindo sua conservação, mas a decisão de demolir prevaleceu.
Foi apenas em meados do século 20 que a importância do patrimônio histórico começou a ser reconhecida. O professor Wanderley Pinho, que deu nome ao Museu do Recôncavo em Candeias, iniciou discussões sobre a preservação do Centro Histórico no Instituto Geográfico e Histórico da Bahia (IGHB). Entretanto, seus esforços não se concretizaram até que o deputado estadual Pedro Calmon transformou a ideia em projeto de lei, que também não foi sancionado.
A Emergência da Preservação
Com a crescente conscientização sobre a importância do patrimônio, nasceu o Serviço de Patrimônio Histórico da Cidade Cultural (SPHAN), que se transformou no Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). O historiador destaca que a derrubada da Igreja da Sé impulsionou a criação desse órgão em nível nacional, em resposta ao desejo de proteger o patrimônio histórico de outras regiões, como Minas Gerais.
O arquiteto Luiz Baqueiro observa que a população também exercia pressão contra intervenções consideradas arbitrárias. Ele lamenta a paisagem eclética e deteriorada da cidade, destacando que a perda de referências históricas causou um grande trauma cultural. Baqueiro enfatiza que a cidade de Salvador, no início do século 20, refletia a essência de sua sociedade e cultura.
Valorização Cultural e Turística
Atualmente, Salvador abriga 71 imóveis tombados pelo Ipac e 165 sob a responsabilidade do Iphan. Esses edifícios, igrejas e monumentos não só contam a história da cidade, mas também atraem turistas, contribuindo para a economia local. O Elevador Lacerda, o Mercado Modelo e o Forte de São Marcelo são alguns dos ícones que representam a identidade cultural baiana.
A vice-prefeita e secretária de Cultura e Turismo, Ana Paula Matos, ressalta a importância das intervenções na recuperação dos prédios históricos. Segundo ela, essas ações vão além da conservação física, atuando como estratégias para fortalecer o turismo. Em um período de alta demanda, Salvador recebeu quase 4 milhões de visitantes durante o verão, e a cidade registrou um crescimento de 10,7% no número de turistas estrangeiros em janeiro.
Desafios e Futuro do Turismo em Salvador
No cenário estadual, o mês de fevereiro deste ano trouxe 30.173 turistas internacionais à Bahia, refletindo um crescimento de 13,2% em relação ao ano anterior. A cidade ocupa a sexta posição entre os estados brasileiros com maior volume de chegadas internacionais, atrás de estados como Rio Grande do Sul e Rio de Janeiro. Em 2025, a receita turística da cidade chegou a R$ 22,1 bilhões, um aumento significativo em comparação com 2024.
Além disso, a temporada de cruzeiros de 2025/2026 promete atrair 58 navios ao porto de Salvador. Ana Paula Matos destaca que o calendário cultural da cidade se estende além do verão, com eventos planejados para datas estrategicamente importantes, como o São João.
No passado dia 12 de fevereiro, um trágico acidente no Centro Histórico trouxe à tona a necessidade urgente de manutenção nos imóveis da região. A queda do teto da Igreja de São Francisco resultou na morte de uma turista, levando ao fechamento do templo para reformas que já ultrapassam um ano. O Iphan, responsável pela obra, investiu aproximadamente R$ 2,4 milhões na recuperação da estrutura, que está em fase finalização.
A atual gestão também instituiu normas de preservação para o Centro Histórico, visando proteger o legado cultural e garantir que as lições do passado não sejam esquecidas.

