Benefícios do Vinho Ficam Apenas no Laboratório
Recentemente, circulou nas redes sociais a afirmação de que o vinho poderia eliminar até 99% das bactérias responsáveis por infecções na garganta, graças à presença de compostos bioativos como polifenóis, resveratrol, taninos e antioxidantes. Contudo, uma investigação realizada pelo Estadão Verifica trouxe à tona a realidade por trás dessa alegação, revelando que é enganosa. Segundo a análise, a postagem se fundamenta em um estudo de 2007, que foi conduzido em ambiente laboratorial e não possui respaldo em ensaios clínicos que comprovem efeitos semelhantes em humanos.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) já havia alertado que não existe um nível seguro para o consumo de bebidas alcoólicas. Em decorrência disso, é fundamental entender que os resultados obtidos em laboratório não necessariamente se traduzem em eficácia clínica. “Esse tipo de modelo investiga o potencial antimicrobiano em meio artificial, mas não estabelece eficácia em seres humanos”, detalhou um especialista sobre o assunto.
Segundo Cavagni, os compostos presentes no vinho são rapidamente diluídos pela saliva logo após a ingestão. Em seguida, esses compostos são engolidos e processados pelo fígado. O contato com a mucosa da faringe, por sua vez, ocorre por um tempo extremamente breve, o que diminui consideravelmente a chance de se manter concentrações que possam ser eficazes no combate a infecções.
O professor ressalta que, até o momento, não há evidências que sustentem que a quantidade de polifenóis ou resveratrol em uma taça de vinho seria suficiente para gerar um efeito antimicrobiano significativo. O estudo em questão atribui a atividade antibacteriana principalmente aos ácidos orgânicos presentes no vinho, e não especificamente ao resveratrol.
Embora existam outros estudos in vitro sugerindo que polifenóis e componentes do vinho podem inibir certas bactérias em condições de laboratório, é importante notar que esses experimentos expõem bactérias isoladas diretamente ao vinho ou a seus compostos. Jucelino Kulmann, especialista em Vinhos e Bebidas no Instituto Federal de Santa Catarina (IFSC), explica que esses testes são realizados em condições de controle rigoroso de temperatura, concentração e tempo de contato.
“Aplicar vinho em uma cultura bacteriana e observar a redução ou morte de microrganismos é uma coisa; afirmar que o consumo da bebida pode eliminar infecções na garganta é outra completamente diferente”, afirmou Kulmann. Ele destaca que apenas estudos populacionais amplos, que consigam controlar variáveis como dieta e estilo de vida, poderiam avaliar um possível efeito clínico em pacientes. Até agora, esse tipo de pesquisa ainda não foi realizado.
Reforçando essa perspectiva, Luiz Gustavo Gardinassi, professor doutor na Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (USP), corroborou que as evidências disponíveis não sustentam a utilização do vinho como um tratamento. “Embora alguns componentes demonstrem atividade bactericida em laboratório, isso não se aplica à prática clínica”, concluiu.

