Enfrentando o racismo desde a infância
Aos 7 anos, Luísa (nome fictício), hoje com 14, começou a ouvir comentários sobre o tamanho dos seus lábios na escola. Mesmo chamando a atenção pela sua beleza, ela relata que os episódios de racismo ainda a impedem de se enxergar dessa forma. “‘Por que sua boca é deste tamanho?’ e ‘Por que seu cabelo é estranho?’ são perguntas constantes que refletem o preconceito que ela enfrenta diariamente.
Esses episódios não são isolados. Recentemente, Luísa esbarrou num colega que comentou: “tinha que ser preto para fazer isso”, tratando-a como objeto e não como pessoa. Essas experiências fazem parte da rotina da jovem, que busca apoio para lidar com o impacto emocional do racismo.
Arte como resistência e expressão
Para Luiz Leonardo da Silva Pereira, 18, o racismo também é tema central em sua vida e na arte que produz. Ele transforma as situações de discriminação que vivencia em música e poesia, utilizando a expressão artística como forma de resistência. “Já fui chamado de ‘macaco’ e sofri agressões apenas por ser negro”, conta. Apesar dos episódios, Luiz destaca um amadurecimento emocional: “Agora, estou mais focado em mim e o que os outros falam não me afeta tanto”.
Ambos participam do Projeto Kilombinho, desenvolvido pelo Centro de Atenção Psicossocial (Caps) Infantojuvenil 2 Ermelino Matarazzo, em São Paulo. A iniciativa, gerida pela Secretaria Municipal da Saúde e pela Superintendência de Atenção à Saúde (Seconci-SP), trabalha para abordar os impactos do racismo na saúde mental de crianças e adolescentes por meio de atividades lúdicas e culturais.
Metodologia lúdica para fortalecer a identidade negra
O Kilombinho utiliza brinquedos, instrumentos musicais, tecidos africanos, literatura, cantigas e danças para ajudar os jovens a compreender e nomear os sentimentos relacionados ao racismo. A cada encontro, as oficinas de letramento racial, contação de histórias e músicas afrocentradas ressaltam o protagonismo negro, sua beleza e ancestralidade.
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Uma “mala de viagem lúdica” é parte das atividades, contendo livros, bonecas pretas, tecidos e acessórios da cultura africana. Dependendo da programação, jogos de mesa e culinária afroreferenciada também são incorporados, sempre com olhar sensível à cultura negra.
Espaços e atendimento para acolher e educar
As reuniões, conduzidas pela psicóloga Fabiana da Silva Galdino, idealizadora do projeto, e equipe do Caps, têm duração aproximada de uma hora e meia e acontecem em escolas públicas, Unidades Básicas de Saúde (UBSs), Centros para Crianças e Adolescentes (CCAs), espaços comunitários e abrigos da região de Ermelino Matarazzo. Além dos encontros em grupo, o Kilombinho oferece atendimentos individuais e familiares.
Fabiana explica que falar sobre racismo é uma tarefa delicada: “É difícil se assumir negro na sociedade em que vivemos. O Kilombinho usa a brincadeira para enfrentar essas questões, promovendo autoestima, pertencimento, reconhecimento, identidade e autonomia”. Segundo ela, muitas crianças chegam sem compreender plenamente sua cor ou origem, o que torna a educação racial ainda mais necessária.
Racismo, saúde mental e desafios cotidianos
O projeto surgiu em julho de 2024 devido ao aumento de casos de racismo e bullying que chegam ao Caps, causando confusão nas famílias. “Muitas vezes, as famílias confundem bullying com racismo. Porém, o racismo é uma violência específica baseada em discriminação étnica ou racial”, destaca Fabiana.
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Fonte: londrinagora.com.br
O impacto do racismo na saúde mental se manifesta em ansiedade, depressão e automutilação, problemas frequentes no Caps Infantojuvenil 2 Ermelino Matarazzo. Luísa, por exemplo, busca no projeto o fortalecimento da autoestima e o entendimento de sua identidade negra. “Quero aprender mais sobre minha ascendência e aceitar que sou negra e bonita, independentemente do que os outros dizem”.
Construindo aceitação e valorização
De acordo com Fabiana, as crianças que chegam ao Kilombinho frequentemente não têm noção de respeito, valorização e afeto ligados à negritude, apresentando crises emocionais intensas. Alguns chegam a se ferir na tentativa de modificar sua aparência para se adequar a padrões estéticos impostos pela sociedade.
Um caso emblemático é o de uma menina que se assustava diariamente com o cabelo black power da mãe e preferia bonecas de pele clara e olhos claros. Com o trabalho do projeto, que inclui a criação de bonecas que misturam tons de pele e cabelos, a criança gradualmente passou a se aceitar e se valorizar, refletindo o impacto positivo da iniciativa na construção da identidade negra.
O Kilombinho segue como um espaço de acolhimento e fortalecimento cultural, promovendo a circulação do conhecimento sobre ancestralidade e combatendo os efeitos negativos do racismo na saúde mental de jovens em São Paulo.

